terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Retiro Mineiro

1

Alguma Tecnologia

fogão à lenha, filtro de barro
rede armada, lanterna acesa



2

Assovio no Vento Escuro

o som liso traz algo tátil
acende lareira



3


Tu


triste ausência ritmada
ao som da chuva que cai

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Retratos Mineiros





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1

alpendre com rede


porteirinha de madeira
flores num vaso ao sol


2

com um capim na boca


o cavalo fuça a cancela
roçando o pasto cercado


3

o riachinho narra no mesmo tom

uma historinha irrepetível
para outras margens


4

nas galhas da mata verde

a dança da borboleta
ao som da cachoeira


5

a cachoeira ora do alto

numa gradação de quedas
petrificando um altar

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Roteiros Mineiros

















Casa de Hóspedes Carijó - Bocaina/MG




1

entre o haicai e o epigrama

esta letra breve balança
ao som de versos brancos


2

óculos, chaves, lanterna acesa

sob o guarda-chuva
um corpo com pilha


3

na solidão do verde vale

a janela da casa abre
diálogo com o pinheiral


4

leio deitado na cama

pela janela, o céu sobre
o dorso da montanha

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Às curvas da estrada e da sola do pé



Embora tenha viajado por mares dantes, nunca ouviu chuva com a entrega de quem assiste missa. Também não pisa o limite de quem urra na cama ou num show.

Sabe que a antiga pitonisa continua solta dando senhas: são as pernas andróginas de Orlando e Dorian. Mas sempre do outro lado.

Como garçom, curte sola. Anuncia sempre um novo prato. Traz a inquietude de bandeja e repete falando sério: é bem melhor você parar com essas coisas. O sambódromo treme. O sertão inunda. Riobaldo acorda. Cansado de pactos nas veredas mortas, sussurra de amparo, aperta os dedos no pau da canoa e faz acordos que é uma beleza.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Tua presença faz a vida me acertar







Após a travessia de túneis escuros, declamo de cor o primeiro verso do “Ulisses” de Pessoa: “O mito é o nada que é tudo”. Só quem atravessou túneis, adros, pontes, passadiços... sabe desta matéria concreta. Matéria da qual são feitos os sonhos e construídos mitos. Sei dos esquemas capitais e do cargo que atualmente assumes na prefeitura. Como amante de fluxos e movências, te ocupas com a decapitação de monstros que atanazam os munícipes e com o investimento na produção de teus filhos e eleitores, correto?

Prossigo com alma lavada. Lavada na chuva sobre o telhado da casa de campo. A imagem irriga em ti amores idos. Uma mulher reluz numa pegada pós-chuva. Pegada que você narra com as garras de quem apaga a luz para que a lanterna brilhe azulando a escuridão da sala e o pau quebre.

Bebo no brilho da lanterna deste olhar que tenta petrificar o instante. Os versos às vezes ardem, sei. Zunem no canteiro noturno. Procuram pouso. Versos abrem estradas. Dançam na noite da floresta negra. Letras dizem para eu plugar a boca no branco como cor que restaura a poça da vida. Mergulho no avesso desta pele. Vou fundo até ouvir o ronco que me conduz pela estrada noite adentro. A guia é toda tua. A mão que aperta, também. Desço pelo túnel escuro com trilha sonora de tua tosse. Não reclamo qualquer zunido; a tua presença faz a vida me acertar.

Sabes, por escrito, da “estima exponencial” – eu disse com todas as letras. Recuperando a memória afetiva, ordenas fragmentos de uma história repleta de cheiros, chás, suores, corpos em estado de sítio ou liquidação. Sob as bênçãos de Santa Libido, rogai por nós. Com a determinação de uma mancha que, lambida, vira signo. Assinatura corporal.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Cercado de Letras



Toda a literatura dos sobreviventes relata esse entorpecimento.
Bernhard Schlink, O Leitor
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Amor, Analfabetismo, Auschwitz. Não necessariamente nessa ordem, são esses os ingredientes do filme O leitor. Stephen Daldry, o diretor, demonstra habilidade no diálogo entre letras e telas desde As Horas, onde narra a vida da escritora inglesa Virgínia Wollf.

Baseado num livro do escritor alemão Bernhard Schlink, O leitor é uma história carregada de três ingredientes produtivos e perigosos: política, poesia e erotismo. A narrativa de Schlink é escrita numa linguagem clara e direta, numa forma linear, às vezes meio previsível. Mas essa história – repleta de visibilidade, como a maioria das narrativas modernas – não é nada previsível.

Trata-se de um garoto de 15 anos que conhece farpas e mel – do amor e dos fatos – ao envolver-se com uma mulher de 36. Ela, uma ex-vigilante que encaminhava judeus para as câmaras de gás nos campos de concentração nazistas; ele, um jovem (futuro estudante de Direito) que lê Homero, Rilke, Cicero e Horácio, vivendo numa família cercada de Letras (seu pai é professor de Filosofia e sua irmã estuda Literatura).


Verdade e Lei


A ficção de Schlink se desenvolve numa Alemanha pós-guerra, década de 40 do século XX. Esse contexto destroçado traduz-se, no filme, em cores sóbrias que sugerem imagens trágicas. O contexto bélico e suas memórias são os referentes através dos quais as questões políticas e sociais se inscrevem.

Essa questão aparecem principalmente no livro: o que é o direito? Quais os papéis dos advogados e promotores numa sociedade pós-guerra? Quais os limites do “distanciamento profissional?” Como deve ser feita a leitura do nosso passado histórico? O que fazer com o medo, o entorpecimento e o horror que invadem “violentamente o cotidiano”? Enfim, a grande pergunta que atravessou todo o século XX e continua ecoando em nosso imaginário social: o que as gerações seguintes devem fazer “com as informações sobre as atrocidades dos extermínios dos Judeus?”


Entre os dois amantes rola sexo, leituras (Guerra e Paz) e uma infinda "batalha verbal"। A tigresa Hanna tem um “corpo cheio de força e confiante”. Por isso, doa para o seu “filhote”-"menino"-“pedrinha” dois elementos raros na juventude: segurança e decisão. Em troca, Michael lê. Ele lê principalmente a nuca, as pernas, o corpo inteiro da amada. Lê também os livros em voz alta - atendendo aos pedidos dessa funcionária do bonde, cujo passado bélico ele só conhecerá num tribunal público.
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Quanto mais lê, mais ele se submete às ciladas dessa Lilith em plena maturidade feminina। As brigas e os descompassos produzem mais intimidades. Mergulhos em águas turvas. Trevas e traças de uma história cujo futuro ninguém sabe, ninguém vê. Bombardeios de palavras e beijos. Cenas de sangue e poesia se alternam e aproximam o casal que grita de prazer enquanto trepa. Essa relação conflitante entre eles parece ser uma metonímia das próprias relações históricas num país descompassado pela guerra.

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Sem efeitos grandiloquentes nem ritmos alucinantes, O leitor cria ritmos. É aquele tipo de filme que afeta a respiração de quem vê. Isso, por um motivo atroz: aquele que narra e lê – belo, resignado, cheio de memórias – mostra que a verdade e a lei, em alguns contextos, são coisas bem distintas.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Alguns inícios são assim

Antes de iniciar este livro, imaginei
construí-lo pela divisão do trabalho.
Algum tempo hesitei se devia abrir
estas memórias pelo princípio.
Esta história começa numa noite
de março tão escura...

O céu tão azul lá fora,
e aquele mal-estar aqui dentro.
Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto;
Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai...
O mal foi ter eu medido o meu
avanço sobre o cabresto.

João está na minha frente. Pálido.
Pergunta se não quero fazer
café. Nonada. Tiros que o senhor
ouviu ergo sum, aliás, Ego
sum Renatus Cartesius,

cá perdido.
Verdes mares bravios de minha
terra natal. Trilha sonora
ao fundo: