Toda a literatura dos sobreviventes relata esse entorpecimento.
Bernhard Schlink,
O Leitor .
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Amor, Analfabetismo, Auschwitz. Não necessariamente nessa ordem, são esses os ingredientes do filme
O leitor.
Stephen Daldry, o diretor, demonstra habilidade no diálogo entre letras e telas desde
As Horas, onde narra a vida da escritora inglesa Virgínia Wollf.
Baseado num livro do escritor alemão Bernhard Schlink,
O leitor é uma história carregada de três ingredientes produtivos e perigosos: política, poesia e erotismo. A narrativa de Schlink é escrita numa linguagem clara e direta, numa forma linear, às vezes meio previsível. Mas essa história – repleta de visibilidade, como a maioria das narrativas modernas – não é nada previsível.
Trata-se de um garoto de 15 anos que conhece farpas e mel – do amor e dos fatos – ao envolver-se com uma mulher de 36. Ela, uma ex-vigilante que encaminhava judeus para as câmaras de gás nos campos de concentração nazistas; ele, um jovem (futuro estudante de Direito) que lê Homero, Rilke, Cicero e Horácio, vivendo numa família cercada de Letras (seu pai é professor de Filosofia e sua irmã estuda Literatura).
Verdade e LeiA ficção de Schlink se desenvolve numa Alemanha pós-guerra, década de 40 do século XX. Esse contexto destroçado traduz-se, no filme, em cores sóbrias que sugerem imagens trágicas. O contexto bélico e suas memórias são os referentes através dos quais as questões políticas e sociais se inscrevem.
Essa questão aparecem principalmente no livro: o que é o direito? Quais os papéis dos advogados e promotores numa sociedade pós-guerra? Quais os limites do “distanciamento profissional?” Como deve ser feita a leitura do nosso passado histórico? O que fazer com o medo, o entorpecimento e o horror que invadem “violentamente o cotidiano”? Enfim, a grande pergunta que atravessou todo o século XX e continua ecoando em nosso imaginário social: o que as gerações seguintes devem fazer “com as informações sobre as atrocidades dos extermínios dos Judeus?”
Entre os dois amantes rola sexo, leituras (
Guerra e Paz) e uma infinda "batalha verbal"। A tigresa Hanna tem um “corpo cheio de força e confiante”. Por isso, doa para o seu “filhote”-"menino"-“pedrinha” dois elementos raros na juventude: segurança e decisão. Em troca, Michael lê. Ele lê principalmente a nuca, as pernas, o corpo inteiro da amada. Lê também os livros em voz alta - atendendo aos pedidos dessa funcionária do bonde, cujo passado bélico ele só conhecerá num tribunal público.
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Quanto mais lê, mais ele se submete às ciladas dessa Lilith em plena maturidade feminina। As brigas e os descompassos produzem mais intimidades. Mergulhos em águas turvas. Trevas e traças de uma história cujo futuro ninguém sabe, ninguém vê. Bombardeios de palavras e beijos. Cenas de sangue e poesia se alternam e aproximam o casal que grita de prazer enquanto trepa. Essa relação conflitante entre eles parece ser uma metonímia das próprias relações históricas num país descompassado pela guerra.
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Sem efeitos grandiloquentes nem ritmos alucinantes,
O leitor cria ritmos. É aquele tipo de filme que afeta a respiração de quem vê. Isso, por um motivo atroz: aquele que narra e lê – belo, resignado, cheio de memórias – mostra que a verdade e a lei, em alguns contextos, são coisas bem distintas.