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quinta-feira, 25 de março de 2010

Do lírico que não se distancia




Tarde percebeu: nem todo lirismo tem olhar dispersivo. Lembrou Macau, livro do Paulo Henriques Brito: são as palavras, e não os ombros, que suportam o mundo. Prestou atenção nas palavras ao lado. Palavras dos ombros. Atenção para o que roça. Celebração do que está próximo. Tia Lica achava o longe geralmente passível de adiamentos...

Impelido pela movência do seu tempo, embarcou em fluxos musicais, repetitivos. Fluxos prolongados que nem uma nota longa e lânguida de antiga canção. Sintaxe antidiscursiva e musical que circunda de forma repetitiva o objeto. Desvios coordenados na rememoração.

Ele não sabe a que tipo de impulso – unificador, múltiplo? – as coisas amoldam-se. Coisas moldam. Inscreve, na previsão do romance, uma “lógica perfeita de nervuras” –. como diz o poeta-engenheiro Joaquim Cardoso. Lírico plugado no seu tempo, ele traça em sua poética um diálogo afirmativo entre mitologia e sonho. As formas da mitologia dialogam com os sonhos da razão e seus monstros.

Centrado numa razão fictícia, esse diálogo registra a memória dos homens, mangues e cajus nordestinos।

sábado, 19 de dezembro de 2009

Estação Poesia




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“o eco no bojo da macaíba” em quatro livros de poesia: Invenção Recife, Estação Recife, As formas de morte e À beira do silêncio


Tudo ilha ou Diálogo só com a Tradição


Na historiografia literária brasileira, a Região Nordeste configura-se como um dos espaços que mais produzem literatura. Principalmente poesia. Há uma conexão poética bastante visível entre as estéticas da modernidade e os autores nordestinos, sejam eles Manuel Bandeira, João Cabral de Mello Neto, Joaquim Cardoso, Hermilo Borba Filho, Ariano Suassuna, Sebastião Uchoa Leite (PE), Ferreira Gullar (MA), Mário Faustino (PI), Augusto dos Anjos (PB), Sosísgenes Costa (BA), Zila Mamede (RN) e Jorge de Lima (AL), além de muitos outros.

As poéticas desses autores são freqüentemente resgatadas pelos poetas nordestinos contemporâneos, como demonstram os quatro livros aqui referidos, todos de autores nascidos naquela região, e recentemente publicados. Dentre os volumes, dois são produzidos sob a forma de coletâneas: Invenção Recife, organizado por Pietro Wagner e Delmo Montenegro, e Estação Recife, organizado por, dentre outros, Everardo Norões. Os outros dois volumes são: as formas de morte, de Silvino Ferreira Junior e À beira do silêncio, de Maurício de Macedo.

Um dos procedimentos estéticos que mais chamam a atenção nesses poetas é a freqüência com a qual eles dialogam com a tradição literária (principalmente a poesia modernista brasileira naquela que é considerada sua segunda fase), e como esse diálogo parece escasso entre eles, os próprios poetas contemporâneos. São múltiplas as formas, as imagens, e várias as estéticas que os inscrevem. Nessa inscrição, cada poeta, cada livro, cada poema parece sinalizar em si o esboço de uma poética particular.

Mesmo quando reunidos num mesmo volume – como é o caso das duas coletâneas publicadas pelos poetas do Recife –, esses autores não apresentam traços estilísticos comuns. A leitura dessas duas coletâneas sinaliza os percursos individuais a partir dos quais esses textos se constroem. As formas denotam a falta de manifestos e diretrizes estéticas que caracterizam este início de milênio, sugerindo como cada autor reinventa seu próprio percurso isoladamente.

Ou seja: tudo ilha. Esse isolamento é legível num poema de Pietro Wagner que faz parte da coletânea Invenção Recife: ilha/ retém tuas águas/ para que se faça a cor do teu próximo dia. Do mesmo volume vem o aviso do escritor Jomard Muniz de Britto, acerca desse isolamento como mal poético: "...atenção, amantes do Parnaso: o auto-exílio pode ser a pior das doenças."

O volume no qual se encontram os versos acima é o mais polifônico dentre os quatro livros aqui mencionados. Se colocarmos num liquidificador os principais movimentos de vanguardas e as principais tendências estéticas que estetizaram o século XX – o Concretismo, o Poema-Processo, o Tropicalismo e a Poesia marginal – teremos uma boa pista para a leitura dessa Invenção Recife – coletânea poética 2. Lançado em 2004, o volume anuncia, na apresentação do leminskiano Fabrício Marques, a irreverência pernambucana, sinalizando sua vocação para a negação e o corte: Literatura navalha contra o papo raso da elite vesga.

Para inventar o Recife poético, foram selecionados dez autores. Alguns, bastante conhecidos pela sua “poeticidade”, como o acima citado Jomard Muniz. Irônico, ele lança sua “bula” para inscrever uma outra doença de chagas tropicalistas...; e para construir sua hommage ao poeta Murilo Mendes, constrói um “jogo de espelhos” a partir do qual faz convergir, num mesmo verso, autores díspares como Shakeaspeare, Descartes e Leminski: adeus, hamlet. a deus, descartes. ao tudo, catatau. Vinda do antenado poeta dos arrecifes do desejo, essa conversão inscreve a multiplicidade temática e formal que inaugura as poéticas deste milênio.

A herança concretista desta antologia é vivificada na “CAMISADEVÊNUS” do escritor Marcelino Freire. Na sua hommage ao poeta Carlos Drummond de Andrade, essa herança estética se concretiza no celebrado verso No meio do caminho tinha uma pedra, com base no qual o leitor relê a porção de sísifo que emerge da letra do moderno vate mineiro. Dentre os jovens autores, destacam-se Frederico Barbosa (Prêmio Jabuti de Poesia por Nada feito nada, 1993) e sua “Vocação do Recife” (Faca clara/ que ainda fala/ não), escancarando o produtivo diálogo com Bandeira e sua “Evocação do Recife”.

Esse dialogismo com poetas pernambucanos consagrados pode ser aferido em vários outros textos do livro, e principalmente no verso de um outro jovem autor: Siba Veloso. Mestre de maracatu e músico do grupo “Mestre Ambrósio”, ele é produtor de um dos versos que parece sintetizar o ritmo dessa Invenção Recife: Eu canto imitando os meus. A imitação desse canto possibilita ao autor o resgate das matrizes musicais e da oralidade nordestina, como o leitor pode inferir ao apurar o ouvido para ...o eco/ no bojo da macaíba...

Quando a palavra muda a cor do dia

O mapeamento poético da produção pernambucana continua na Estação Recife – coletânea poética 2. Também lançado em 2004, o volume é aberto com o belo poema “Hoje”, de Deborah Brennad, autora de oito livros de poemas. Pertence à geração de Ariano Suassuna e Hermilo Borba Filho, a poeta viveu em engenhos nordestinos onde criou gado, e destaca-se como proprietária de uma poética centrada na inscrição do tempo, como demonstram seus títulos nesta antologia: Hoje, Dia é dia, Senhor tempo, Dezembro... Autora que exercita uma forma enxuta e de curta extensão, Deborah apresenta um texto certeiro para a abertura de uma antologia contemporânea, leiam:

Hoje

Com a delicadeza
que convém aos mortais

diga-lhe:

no quarto
há lençóis macios

tão alvos

uma cama de ferro
com enfeites

no alto

lembranças do claro
sob cortinas

de gaze

e, na cabeceira,
um par de jarros

ao lado

exalando, suave,
o aroma asiático

dos jasmins.


Descanse nele hoje à tarde.

Comparada com Invenção Recife, essa Estação..., apresenta autores com vasta produção literária e que ostentam, em sua maioria, uma gama de experiências estéticas, além de uma consolidada formação acadêmica. Aqui, alguns textos são mais caudalosos, como no belo poema Alpendres e Currais de Majela Colares, na Litania que o jornalista e compositor Marco Pólo Guimarães dedica ao conterrâneo Osman Lins, ou no “Poema de despedida ao que parte para o mundo”, de Maria de Lourdes Hortas।

Neste livro, os temas e as referências parecem mais centrados nos motivos próximos e regionais, sejam eles: Graciliano Ramos, Joaquim Cardozo, Jackson do Pandeiro, Olinda, Recife, o sertão nordestino, seus silêncios, engenhos, arrebóis e currais.... Através desses temas e motivos, a maioria desses autores parece celebrar a lição de Marco Pólo Guimarães: “Aprendi que só valem a pena as palavras/ que mudem a cor do dia”.

Transeunte desta Estação Recife, o leitor testemunha como são múltiplas as formas, as maneiras de dizer, os temas e os motivos que esses poetas elegem para re-descobrir a cidade, o sertão e suas letras. Nenhum lirismo marginal e poucos roteiros oníricos anunciam-se nesta Estação... Seus autores tecem gestos e desenham ambiências que denotam experiências vivificadas no corpo, na pele, seja através dos cheiros e dos costumes, ou por meio da paisagem áspera e sua cor local.

A celebração desses traços poéticos pode ser lida na forma que se contém e anuncia, com carregado sotaque cabralino, o “Sertão caiado” de Marco Pólo Guimarães:

Aqui o céu é feito lâmina
Aguçada pelo sol
A paisagem é uma chama
Retorcida em cruz e nó

Distante do lirismo como gênero cuja estrutura verbal expressa ritmos e imagens que remetem principalmente ao universo da imaginação, a maioria dos poemas dessa coletânea reflete muito mais o espaço e o tempo da cidade e do sertão aqui inscritos. No embarque à essa Estação... descobre-se um roteiro no qual a poesia desce do céu e das nuvens e desembarca na terra, no corpo e na página à espera de quem lê.


Quando a palavra dialoga com o silêncio


O livro À beira do silêncio, de Maurício de Macedo, inicia por uma visível lacuna: não traz copyright nem folha de rosto com ficha catalográfica. O livro contém, porém, uma orelha informando ser o poeta autor de 12 livros de poesia, e abre-se com uma contemporânea epígrafe de Jorge de Lima – um poeta cada vez mais redescoberto pelos contemporâneos: “Os soluços da noite procuraram a garganta das coisas e falaram”.

Falar por meio das coisas é um procedimento salutar e bastante recorrente nas poéticas contemporâneas, e Maurício busca fazê-lo, dentre outros, através de barquinhos de papel ou de um quadro de Picasso. Para captar esse discurso das coisas, o poeta recorre à leitura do “silêncio” – texto que abre o volume e a partir do qual o escritor Moacyr Scliar constrói a Apresentação do livro. Diz o poema:

Cada um cala em sua palavra uma cicatriz.
Cada um aprende a carregar o seu silêncio
feito o garção que se movimenta
equilibrando a bandeja na palma da mão.


Essa metáfora do garção que busca o equilíbrio ao movimentar-se parece certeira ao vivificar a ação do poeta. A busca desse equilíbrio é notória em poemas como “Terra de náufragos” e “Angústia”, textos que podem ser lidos como uma hommage ao escritor Graciliano Ramos, de quem o autor é conterrâneo. Além do escritor de Angústia, vários outros artistas ligados à estética da modernidade permeiam as páginas de À beira do silêncio, sugerindo o vasto repertório estético do seu autor.

A leitura do seu livro é, sobretudo, um exercício de metalinguagem com saudades do século XX e seus intertextos com a letra, a música, o folclore e a pintura. Além dos dois conterrâneos já citados – Graciliano Ramos e Jorge de Lima –, outros autores que marcaram o século XX e seus ícones mais recorrentes destacam-se neste livro, como: Drummond e sua pedra, Vinícius de Moraes e sua chama, Kafka e seus pesadelos, Lennon e sua ação imaginária, Neruda e seus pássaros, Picasso e seus monstros, além de uma breve ”Fotografia de Rimbaud” que diz:

No horizonte azul
do mar dos olhos do adolescente
um barco bêbado flutua
no périplo infinito das iluminações


Flutuando ente a palavra e o silêncio, a poética de Maurício de Macedo traduz a herança modernista em suas múltiplas vertentes, sejam elas regional, primitivista, cósmica ou cosmopolita. Poesia que relê o homem e seu espaço, evidenciando o capital imagético daquela modernidade que celebra a linguagem debruçada sobre o seu próprio manancial.

Diferentemente dessa linguagem que se debruça sobre a própria linguagem são as formas de morte, de Silvino Ferreira Junior। Embora desprovido da rigidez métrica, o autor não se exila dos territórios da lírica e do misticismo, e em alguns poemas parece tocado pelo “entusiasmo divino” que platonicamente ainda move alguns poetas neste início de milênio। O trabalho com a linguagem parece inconcluso, deixando saltar aos olhos do leitor o que para o próprio poeta não parece evidente, como denunciam versos como um tanto poeta (“rude”) ou em minha poesia está morta (“escrita”).

Sem ficha catalográfica, sem dados sobre o autor nem datas, o livro apresenta um suntuoso projeto gráfico que não se justifica, seja pela falta de cuidados como erro de acentuação, seja pela falta de numeração das páginas ou pela forma inacabada de alguns poemas. O recorte vocabular que os sustentam parece oriundo de outro século, como evidenciam estas palavras: choro, vômito, morte, lágrima, solidão, túmulo, dor, sombra, lâmina, frio, névoa, maldade... Mas num dos seus poucos momentos poéticos, o autor reconhece que só somos humanos, porque nomeamos.

Os poemas desses 4 livros copilam as vozes das coisas e do silêncio com os quais continuamos a cantar os amores e as amizades, de um espaço no qual a oralidade dá o tom em meio aos mitos gráficos e musas audiovisuais. São coisas de quem embarca na perene Estação da Poesia, e ouve “o eco no bojo da macaíba”. Salve as coletâneas.

BIBLIOGRAFIA

FERREIRA JUNIOR, Silvino. as formas de morte. s/d

MACEDO, Maurício de. À beira do silêncio. s/d.

MONTENEGRO, Delmo. e WAGNER, Pietro. (Org.). Invenção Recife. Coletânea Poética 2. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2004.

NORÕES, Everardo. et al. (Org.). Estação Recife। Coletânea Poética 2. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2004.
RJ 2005

sábado, 5 de setembro de 2009

WOYZECK – O BRASILEIRO, um épico?













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Para Miriam Juvino, produtora da peça



“Quando tem pilha o coração fica sangrando sem parar”


Essa frase acima refere-se, na peça Woyzeck – O Brasileiro, a uma singela imagem do Coração de Jesus que surge nas mãos de um personagem. Retirada do seu contexto, a fala parece sintetizar o texto, o elenco, a produção, e toda a arquitetura sonora (trilha original de Otto) e cênica que engendra a dramaturgia de Fernando Bonassi e a direção de Cibele Forjaz.

Na referida montagem de 2001, no Rio de Janeiro, o discurso da “pilha” é dito por Woyzeck – um homem ciumento que se alimenta de ervilhas, delírios e reflexões. Ele é uma espécie de Sísifo de olaria que escapa da fome indo para o exército. O seu discurso é proferido para Andres – personagem alimentado pelo canto e pela dança, que faz da ação de empilhar tijolos um roteiro concreto para a sua existência.

A “pilha” é aqui lida como metáfora do afeto que se encerra em nosso peito. “Pilha” que dá ritmo ao homem - bicho que se move num cenário áspero de poeira e barro. Sem ela – a pilha – a respiração não alcança; a circulação interdita a palavra.
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Sem “pilha” o olho nubla. O sangue estanca. O gesto encolhe, não cria sentimentos. O corpo pára de dizer; cala o seu discurso secreto e secular quando falta a “pilha”. Sem ela, a pátria é puta. Ninguém te convida ao salão. A vida passa a ser “uma fera que hiberna precariamente” (Ana C.). O coração é lento quando ela está ausente. Tijolo marrom de barro, imóvel e pesado, é o coração sem "pilha" num canto do cenário.

Woyzeck – O Brasileiro é, pois, uma peça sobre a movência e o mistério que é a “pilha” no corpo falante – o pulso, o pé, o olho, tudo o que respira e move. “Pilha” que é necessária ao homem para ritmar o tempo que o consome neste cenário de barro batido, cujo pó o receberá de volta. O texto alemão do século XIX, escrito por Büchner, antecipa alguns procedimentos das vanguardas do século XX, transformando-se numa aula sobre o ritmo e a movência. Na didática dessa aula, o elenco transita pelo cenário lecionando a “matemática do gesto”, a geometria da perda e a perene possibilidade da forma. Várias formas que contornam o caos. Seja a forma circular do poço – onde indagamos o infinito questionário da existência; seja a vertical forma dos planos no cenário – onde a virilidade exerce a sua potência afirmativa e criadora.
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Do arquivo de formas sociais, estéticas e existenciais que compõem a peça, destaca-se o ainda “olhar esfomeado” da mulher. Ela expressa a forma vibrante do universo feminino, seja ao banhar-se no poço, seja ao amassar o barro. De várias maneiras, Woyzeck ajuda-nos a celebrar a provisória cota diária de compreensão e afeto que nos cabe, e a compreender as nossas sedes e fomes contemporâneas.

Olaria humana em ruínas

Munido da “pilha” do personagem alemão, o ator Matheus Nachtergaele – entre dolorido e esperançoso - escreve no programa da peça um texto que parece ritmado pelo pulsar do coração do elenco que sangra “sem parar”. A partir da visão do espetáculo e da leitura de seu texto, é possível a inscrição das demandas de um corpo cuja mobilidade sa(n)gra o que de reflexivo e imaginário pode captar.
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Um corpo atento aos sons e gestos, às palavras e luzes que nascem da escuridão do barro que por vezes chega a salpicar algumas vestes na platéia. Nesta peça ouve-se o eco das dores daqueles que, ao perderem tudo, não conseguiram retornar do fundo do poço. Não conseguiram fabricar uma outra estação. Uma outra primavera. Uma peça da qual saímos para lavar a roupa suja do barro de onde viemos, da poeira que nos alimenta nesta olaria humana em ruínas.

Segundo Matheus, Woyzeck – O Brasileiro é “uma pedreira... para fazer da dor serviço”. Para a execução desse feito, o elenco contata o abismo da pele e a superfície da alma, com tudo de perda, queda, busca e nudez que isso mobiliza: “o desejo de um conhecimento quase insuportável às nossas potencialidades” (Fernando Bonassi). Nas palavras do ator Nanego Lira, a encenação justifica-se “...pelo tesão físico de expor a nossa carne e o nosso sangue no palco”.

Nessa exposição abissal, o corpo amolado e aceso inscreve – na olaria gestual – o quanto de delongas e demoras reside no ritmo que articula um gesto, produz uma palavra. No texto inacabado de 1837, a palavra produzida por Büchner aos 23 anos dá conta desse ritmo através da fala de algumas de suas personagens.
Ouçamos o Capitão:

“— Calma, Woyzeck, calma; uma coisa depois da outra! ...Convém planificar, Woyzeck!”.

“— Está bem, Woyzeck. Você é um homem bom, um homem bom. Mas pensa demais, isso dói. Você está sempre tão apressado”.

“— Senhor Doutor, não corra assim! Não reme assim no ar, com sua bengala! Assim o senhor está se apressando para a morte”.

“— Ei, Woyzeck – Que pressa de passar pela gente! Venha cá, Woyzeck? Correndo como uma navalha aberta pelo mundo! Seria capaz de cortar a gente”.

Enquanto reflexão acerca do deslocamento, do ritmo e da movência, WOYZECK é um vasto interrogatório das relações entre o espaço, o corpo e a palavra: em qual chão precisamos remexer, revirar, para do barro esculpir o gesto – áspero ou leve – de cada dia? De quantos músculos necessitamos para arremessar os tijolos de nossa inacabada construção? Qual palavra brotará da relação entre a “intenção” e o “gesto”?

Todo o elenco de WOYZECK parece vivificar “o esplendor da queda” e “a violência do abismo” (Iracema Macedo). A queda que é filha da pressa; a violência, da falta de ritmo. No cenário, tem-se às vezes a impressão de que tijolos voadores possam acertar algum espectador. São esses tijolos arremessados por este pequeno Sísifo que dialoga com o ativo personagem Andres na recepção do tijolo – signo da forma e do peso que permeiam as suas próprias existências. Mas aqui a leitura desse signo é bastante ambígua, porque ao tijolo é dada a possibilidade de voar por entre as palavras e os seres humanos.

Sob as bênçãos de Apolo e Dioniso

Se pensarmos no signo que é WOYZECK e sua concepção estética, podemos acionar o Nordeste brasileiro como significante (a forma) e a Alemanha como significado (o conteúdo). Do Nordeste como significante, o elenco recolhe sons, formas e materiais; a significação alemã pode estar relacionada às idéias de “derrocada do idealismo romântico e o desenvolvimento da concepção materialista do mundo” (Cibele Forjaz – diretora).

Nestes dois extremos podemos situar a peça: entre a moderna arquitetura dos versos nordestinos de autores como João Cabral de Mello Neto e Joaquim Cardoso, e a pós-moderna filosofia alemã de autores como Nietzsche. Da concepção poética moderna, WOYZECK – O brasileiro herda o rigor e a exatidão, o culto à forma e a secura temática da pedra, do barro, do pó que esculpe a linguagem cabralina.
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Contra o perene otimismo da lógica e a favor da capacidade de suportar a contradição, WOYZECK tem de nietzcheano uma certa ternura para o que nos causa estranheza, e o desejo de estetizar continuamente a existência. Com enorme gozo estético e social, a peça sugere também a dionisíaca crença nietzchiana num Deus e num homem que saibam dançar, que saibam voar. Afinal, é com pés de pomba que se governa o mundo, conforme a lição do filósofo.

Além de Büchner e Nietzsche, um terceiro autor alemão pode ser relacionado à peça: o escritor Walter Benjamin. Para ele, épico é o teatro gestual – aquele teatro que possui o gesto como material e questiona o caráter de diversão atribuído à arte. Neste sentido, podemos pensar que ao assistir a WOYZECK – O Brasileiro, estamos diante de um épico. Não um épico na sua inteireza enquanto gênero que narra a grandiosidade dos fatos históricos e faz apologia ao herói; mas um épico de ruptura, fragmentado, pós-moderno. A peça exibe uma epicidade que, ao estetizar as condições históricas e existenciais de suas personagens, dá conta da nossa subjetividade aflita e contemporânea.

Ao eleger como signos o espaço da movência, o ritmo da palavra e a precisão do gesto, a peça parece traduzir a olaria em ruínas onde amassamos o barro da nossa alteridade, onde construímos os tijolos de tudo o que move, salta, busca saída. Ao lecionar a didática do arremesso, da movência, do salto, Büchner e Matheus lavam nossa alma. Sim, Matheus, seu evangelho nos salvou. Aprendemos que até para morrer é preciso ritmo. Ao sairmos do teatro parece que continuamos a ouvi-lo: vão dançar, vão trabalhar, vão suar, vão foder, vão viver...

Sob a bênção de Dioniso esquecemos, por instantes, a assepsia limitada do shopping. Deletamos o olhar cartesiano e previsível. Rasuramos o pragmatismo dos garotos saudáveis... Melados de saliva e suor, desejamos cair no poço. Almejamos chafurdar na lama. Voltar ao barro. Tudo isso sob a bênção de Apolo, é claro. Porque dele nasce a forma, o ritmo, o gesto.
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BIBLIOGRAFIA
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BENJAMIN, Walter. "Que é o teatro épico? Um estudo sobre Brecht" in Magia e Técnica, Arte e Política. 5a ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.
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PROGRAMA DA PEÇA. Woyzeck - O Brasileiro. Textos de Matheus Nachtegaele et ali. Rio de Janeiro, 2001.