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sábado, 16 de janeiro de 2010

Tua presença faz a vida me acertar







Após a travessia de túneis escuros, declamo de cor o primeiro verso do “Ulisses” de Pessoa: “O mito é o nada que é tudo”. Só quem atravessou túneis, adros, pontes, passadiços... sabe desta matéria concreta. Matéria da qual são feitos os sonhos e construídos mitos. Sei dos esquemas capitais e do cargo que atualmente assumes na prefeitura. Como amante de fluxos e movências, te ocupas com a decapitação de monstros que atanazam os munícipes e com o investimento na produção de teus filhos e eleitores, correto?

Prossigo com alma lavada. Lavada na chuva sobre o telhado da casa de campo. A imagem irriga em ti amores idos. Uma mulher reluz numa pegada pós-chuva. Pegada que você narra com as garras de quem apaga a luz para que a lanterna brilhe azulando a escuridão da sala e o pau quebre.

Bebo no brilho da lanterna deste olhar que tenta petrificar o instante. Os versos às vezes ardem, sei. Zunem no canteiro noturno. Procuram pouso. Versos abrem estradas. Dançam na noite da floresta negra. Letras dizem para eu plugar a boca no branco como cor que restaura a poça da vida. Mergulho no avesso desta pele. Vou fundo até ouvir o ronco que me conduz pela estrada noite adentro. A guia é toda tua. A mão que aperta, também. Desço pelo túnel escuro com trilha sonora de tua tosse. Não reclamo qualquer zunido; a tua presença faz a vida me acertar.

Sabes, por escrito, da “estima exponencial” – eu disse com todas as letras. Recuperando a memória afetiva, ordenas fragmentos de uma história repleta de cheiros, chás, suores, corpos em estado de sítio ou liquidação. Sob as bênçãos de Santa Libido, rogai por nós. Com a determinação de uma mancha que, lambida, vira signo. Assinatura corporal.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Um depois um








Texto escrito para o Curso “O Moderno e o Pós-Moderno”, ministrado pelo prof. David Jackson na Especialização em Literatura Brasileira na UFRN, Natal, 1991

Viagem estética e galática a bordo do fragmento "Um depois um" do livro Galáxias, de Haroldo de Campos

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I


Numa viagem pela linguagem Haroldo percorre no livro-poema Galáxias a pátria da página e nela instala fragmentos mentais de um discurso galático cujo ritmo e sonora idade determinam a vida paixão e morte da palavra morta apaixonada e viva, como quem esculpe a cara clara da página na folha da folha de relva da selva de pedra e palavra caras que nada valem neste vale tudo e sabem-se contidas ditas benditas mil vezes lidas para a lida como quem lida com a água líquida liquidando o ombro a mão o galão do galã guardião do signo aquático no parque mágico onde soam água puras cristalinas esverdeadas do poço do tanque do mar onde tudo é nada e o “mito é o nada que é tudo”

II

Tudos traz Arnaldo Antunes num texto que diz de um outro e outro mais Um Depois Um como outros fragmentos galáticos apresenta em seus traços em suas palavras a ponte para a grande viagem sem volta nem fim como livro e este como viagem que se desfaz desescreve e espera

III

Feito Godot na eterna espera do nada um grupo de jovens – 5 ou 6 dependendo do ritmo da leitura – numa estação de trem alemã celebra o nada – inimigo da conduta moral planetária – prenunciado nas massas marrons mascadas chupadas enquanto chega a polícia cobrando identificação de quem perdeu a noção de unidade totalidade identidade

IV

Em cenários nos quais as relações de espaço determinam conexões com o poder, os jovens são eternos viajantes atores em cenas de encontros e despedidas num tempo onde “há tempos são os jovens que adoecem” e o gado pasta o nada e a perda produz encontro.

V

Caracterizado como “esquizoide e permeável a tudo” (Sérgio Paulo Rouanet), o homem pós-moderno substituiu a justificativa estética da vida (característica do Modernismo) pela justificativa pulsional. Na construção do texto passam a valer os processos textuais que se sobrepõem aos níveis estético e temático.

VI

A palavra e o significante são os grandes personagens do texto onde a escrita é o corpo.

VII

Seguidor da vertente oswaldiana de modalidade cultural, Haroldo transcria Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, Mayakovski e compõe um texto marcado pela proliferação de imagens, re-produções, recortes, fabricando um escrita que se vê, olha a si própria, possibilita uma leitura plural, uma plurileitura onde a fala descãimbra e a narrativa desnarra, deságua numa galáxia sonora que só se reconhece como ritmo, forma, significante...

sábado, 12 de dezembro de 2009

Naus a haver


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Texto escrito com base na arguição da tese de doutorado A Hora e o Nevoeiro - Discurso épico, Vontade de Potência e Mal-estar da Modernidade, de Francisco Welson, defendida em 2008 na UFRN, sob orientação da professora Dra. Ilza Matias de Sousa.
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I – A Hora da Forma

A tese A Hora e o Nevoeiro me pegou desde o título. Fiquei intelectual e emocionalmente aceso quando deparei com este título que parece sintetizar o que de mais preciso e precioso caracteriza a poesia de Fernando Pessoa em Mensagem: discurso épico, Vontade de Potência e Mal-estar da Modernidade.

Depois deste título belo e imagético, veio a surpresa da forma da tese (que pode ser lida como um roteiro poético – “uma épica impraticável”, filosófico e teórico da modernidade no século XX). Como Mensagem – Brasão, Mar Português, O encoberto –, a tese divide-se em três partes: A vontade de potência e a grandeza impossível, Em busca do aedo perdido e O resgate das vozes do passado.

Trata-se um de texto denso, teoricamente bem urdido, que une reflexão e domínio estético. Apresenta um exímio exercício de concisão e síntese, adensando muitas vezes num mesmo parágrafo questões teóricas e contextualizações históricas com problemas estilísticos atinentes ao verso, à sílaba, à rima. A tese inscreve-se na rubrica acadêmica da Literatura Comparada. Seu corpus apresenta um repertório que delimita muito bem o desenho teórico e reflexivo sugerido pela obra em estudo.

A pesquisa apresenta coerência e rigor ao traçar relações interdisciplinares (entre a literatura, história, filosofia, mitologia e religião) e os discursos intertextuais. Em diferentes trechos, Francisco Welson traça comparações entre Pessoa e Camões (p. 121, 122), acionando um diálogo entre 0s 44 poemas de Mensagem escritos durante 21 anos e Os Lusíadas.

As relações se dão também entre Mensagem e outros poemas de Pessoa, Mensagem e poemas de outros heterônimos de Pessoa, como “Tabacaria”; Mensagem e Odisséia; Pessoa e Baudelaire, entre Baudelaire e Bataille; entre Pessoa e Pessoa como poeta no qual ecoam autores clássicos e românticos.

Essas comparações não se limitam ao plano autoral. A tese é bastante feliz quando compara, por exemplo, os feitos de Portugal com as realizações dos gregos (p. 36), ou quando relaciona a providência como “motor lusitano” e o capital como “motor espanhol”.

Os discursos do mito e do logos são também confrontados como formas de conhecimento que “ordenam a estrutura do simbólico”, assim como a palavra e o gesto do aedo, cuja postura sincrônica (“sua palavra seria irmã do gesto”) diferem radicalmente da postura do poeta moderno, para quem o gesto – o comportamento – vai deixando cada vez mais de ser um elemento crítico.

Como intérpretes representativos da modernidade, Nietzsche e Walter Benjamin também participam do banquete comparativo, e em alguns momentos aproximam-se (p. 75). De várias maneiras as formas de pensar e sentir são aqui confrontadas, relidas. Pessoa e Nietzsche aproximam-se através das idéias de vontade de potência e entram em sintonia ao lerem, por exemplo, o cristianismo como fonte de enfermidade e de sofrimento.

Mas os mesmos autores – Pessoa e Nietzsche – afastam-se quando, por exemplo, o poeta tenta ressussitar o Deus morto pelo filósofo de quem foi leitor. Além da relevância ao traçar essas comparações, a tese possui um mérito louvável: é escrita sem o “tom onipotente” que caracteriza algumas escritas proprietárias de grandes certezas (p. 31: “Pessoa parecia ter consciência disso...” / p. 37: “A nosso ver, Pessoa pretendeu...”).

O trabalho com a linguagem é outro aspecto importante da tese. Seu texto não ostenta registros das funções conativa (o que alivia bastante na tarefa da leitura), nem se vale da função metalingüística da linguagem. A linguagem é clara; às vezes metafórica. Em alguns trechos beira poesia.

Esse discurso com função poética pode ser mensurado em expressões como “subúrbios do universo” (p. 23) ou como no trecho a seguir, onde Welson inscreve o espaço da modernidade e fala sobre a condição de ser moderno: “De forma que a ausência de chão para se pisar dará origem ao caos, caracterizando o novo espaço como lugar de combate, angústia...” (p. 39).

As leituras da maioria dos poemas são repletas de referências históricas e estéticas (como no “D. Dinis” cuja leitura se dá em conexão com os textos de Quesado e Soares). Poeta e rei, D. Dinis fundou a primeira universidade portuguesa e incentivou a agricultura, sendo portanto “o plantador de naus a haver”.

Os discursos teórico e poético aproximam-se também quando Welson fala sobre o espaço no qual se situa o poeta moderno. Diz ele: “o que resta é essa noite como símbolo de uma ausência de brilho e fulgor, num espaço em que a luz se ausenta e não permite, frente a um esforço maior, uma melhor apreensão das imagens que se formam” (29). Leitura essa que se faz em sintonia com o último poema de Mensagem: “brilho sem luz e sem arder”.

“O mito é o nada que é tudo”. Esse verso do poema “Ulisses” surge na tese como uma espécie de mantra ao qual Welson recorre de quando em vez quando deseja questionar conceitos como verdade e realidade, dentre outros. “O mito é o nada que é tudo” pode ser lido como parte da trilha sonora deste texto onde a encenação do discurso mítico leva em conta a “função epifânica” (p. 28).

A tese é atravessada por este mito que sendo o nada é também tudo. Parece haver no texto um pathos dramático, da ordem do paradoxo, de uma contradição permanente que caracteriza também a própria idéia da modernidade, e que põe em cena os extremos, o todo e a parte, a palavra sagrada e a linguagem como ruína. Essa ordem paradoxal é ratificada na repetição do verso de “Ulisses”.

II – Leitura do Nevoeiro

“Há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua. Há imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher”

(Bernardo Soares, O Livro do Desassossego)

A Hora e o Nevoeiro trata da condição do ser moderno numa outra ordem. Nesta ordem, o logos, as idéias positivistas dão o tom e os valores são criados sem conexões com a metafísica cristã (p. 67, 81). Nesta leitura, emerge a importância de acionar uma leitura do modelo de nação criado por Mensagem; modelar “uma identidade cultural portuguesa” (p. 35); desenhar uma nação através da linguagem, num contexto no qual a palavra deixou de ser sagrada. (p. 57, 63, 73)

Esse parece ser um dos principais objetivos da tese: “É isto que se pretende resgatar no imaginário português: a idéia de uma nação... de constituir-se a pátria do Quinto Império.” (p. 42). Esse modelo surge em sintonia com a “condição portuguesa” (p. 29) que tem na “angústia” um dos seus sintomas mais ressaltados. “Mensagem foi pensada por Pessoa como uma ação de resgate da grandeza perdida” (p। 44).

Assim como no passado literário de Portugal lido por Eduardo Lourenço, na nação modelada pela poeta o imaginário possui um papel determinante (p. 85). Exemplar da dimensão do imaginário na identidade lusa é a imagem do guerreiro D. Sebastião na letra de Pessoa. Esse imaginário ecoa em Bernardo Soares: “Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos”. (187)

No desenho desta nação, são recorrentes as idéias de totalidade e universalidade que sedimentam as grandes narrativas da modernidade, e que perseguem autores e críticos de contextos sociais e lingüísticos os mais díspares como Benjamin, Lukacs, Clarice, Guimarães Rosa e Pessoa: “Sentir tudo de todas as maneiras...”

A noção de verdade aparece relacionada, em Pessoa, à idéia de completude (p. 24). Não há falta na verdade. O próprio “futuro” de Portugal “é sermos tudo”. (p. 18). Esse futuro começa a ser traçado no discurso bíblico de Daniel e na palavra profética de Nostradamus; passa pelas quadras populares de Bandarra, adentra a oratória de Vieira e chega em Pessoa com um vigor que parece encobrir a ruína, o mal-estar de onde provém.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Terceira Carta do Fim




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Bosque dos Eucaliptos, Novembro de 1998


My dear

Parece que o jantar não fez bem. Desde a Madrugada de ontem, um embrulho no estômago e outro por sobre a mesa me deixam sem tesão. Lembrei do tempo no qual vibrava, mil verbos, e ficava puto como, de quando em vez, você conseguia me deixar. Como em Dante e Ana C, chove a cântaros, dentro da alta fantasia (leia, por favor, com a dicção nobre que o verso pede).

Sigo e rego com Pessoa: tudo que vem é grato. Os textos e a foto acenderam a madrugada. É isso: depois da foto do espelho, achava que ia demorar. Salvei a almofada. Fiz do rasgão um ícone mítico no meu pc. Esse rasgão, o buraco escuro não saíam da retina. Ficaram noites, semanas, meses de rasgão na retina. Eu pensava pô, pelo menos isso, vai. Irriga um pouco a secura do meu pc nesta vida severina de nós 2.

Não sou mesquinho nem azedo como você advertiu uma vez. Lembro dos dias eleitos. Caminhadas pelas ruas da cidade, teu braço roçando o meu e as luzes acesas. Vivi nos Fragmentos de um discurso amoroso ao vivo o poder do afeto fertilizando dias nos cenários em ruínas da cidade. Alguns finais de tarde, café no entardecer do Palácio, patrocinam essas miudezas do afeto. Pequeno mapa do desejo expresso na cor de sempre.

Sempre na hora do rango, flashes da nossa rotina. Essa necessidade de festejar na sala o afeto que circula na tela na página no pau e irriga o projeto da vez. Esses flashes sugerem uma outra parada que Barthes não anotou porque só conhecia Gilberto Freyre, nunca leu Carlos Drummond: o amor chega tarde. Demora. Às vezes nem vem. Enquanto isso, o jeito é brincar de lobo e comer a vovozinha. Ou seja: ser o verão o apogeu do inverno.

E não chame novamente de drama o que argumentei com fatos. Não aceito. Conheço o dorso do tigre, da montanha, colhi laranja no pé. Sei muito bem o que querem de mim os buritis na tarde. Não respondo mais aos questionários escolares nem traço roteiros para acampamento juvenil. Redações de férias? nem pensar, adoro sarna, manchinhas, espremo espinhas, o escambal. Como com farinha e jeito de quem não se espanta. Nem com o azul azul, nem com a mão no seio da sereia.

domingo, 12 de julho de 2009

"Minha música não quer pouco"



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Entrevista publicada na Revista Suite Rio, ano 2 - n 9, Rio de Janeiro, 2005



“Minha música não quer pouco”. Com esse verso, a cantora e compositora Adriana Calcanhotto finaliza o cd A fábrica do poema, e inscreve um dos seus lemas. Conhecida nacionalmente a partir dos anos oitenta, ela é autora de outros cultuados títulos da nossa música, como: Senhas, Maritmo, Público, Cantada e, dentre outros, Adriana Partimpim. A ótima recepção desse último cd motiva o atual show da cantora, cuja direção ela divide com Hamilton Vaz Pereira e Leonardo Neto.

Ouçamos a seguir a moça, cujo canto – cosmopolita e contemporâneo – faz parte da trilha sonora de um tempo no qual a arte e a cultura de massas, a raiz e a antena, a infância e a maturidade, dialogam sem subordinação. Sobre Partimpim, a passagem do tempo e a conexão com as artes, a artista lança aqui o seu olhar, cuja visão traduz uma das “letras” e vozes que mais expressam a cultura e a subjetividade produzidas neste início de milênio.


NG – Para criar seu heterônimo Partimpim, você dialogou com nomes como Hokusai (ilustrador japonês) e Fernando Pessoa (poeta português). Qual é a contribuição desses artistas para a sua criação atual?

AC - É enorme. Suas relações com seus outros, seus desprendimentos quando se transformam em outros, tudo isso foi e é muito rico para mim.


NG – Seu “piston cretino” é um dos “personagens” que mais se destacam neste show. Gostaria que falasse sobre a criação e a utilidade desse instrumento.

AC - Esse é um dos instrumentos criados por Walter Smetak (1913-1984) e que, segundo ele, é o único instrumento que inventou onde não procurava um som nobre e sim algo engraçado e infantil. Construímos o Pistom Cretino para o show a partir das instruções de Smetak e eu adorei fazer isso, adoro qualquer tipo de proposição na linha “faça você mesmo”.


NG – Quais são as diferenças entre o público de Adriana Calcanhotto e a platéia deste show “Adriana Partimpim”?

AC - Do ponto de vista etário, o público Partimpim atinge um espectro muito maior. Na platéia tem crianças, velhinhos, adultos, tem de tudo. Esses públicos diferentes reunidos num teatro se auto-contaminam e o resultado é encantador.

NG – "Encantador" é o diálogo audível em seu trabalho com os múltiplos campos da arte. Principalmente com o artista plástico Hélio Oiticica e com os poetas. Poetas de diferentes contextos e estéticas, como: Antonio Cicero (“Água Perrier”, “Inverno”, “Pelos ares”), Waly Salomão (“A fábrica do poema”, “Remix século XX”), Mário de Sá-Carneiro (“O outro”) e, dentre outros, Ferreira Gullar (“O ronrom do gatinho” e “Dono do pedaço”). Gostaria que comentasse a sua relação com as outras artes, a poesia e os seus parceiros.

AC - Sempre tive dificuldades para respeitar as fronteiras entre as linguagens, nunca achei que isso funcionasse ou mesmo existisse na prática. Sou sinestésica e acredito que todo artista, em maior ou menor medida, também o é. Gosto de me deixar impactar por autores e inventores de qualquer linguagem e me deixo permear por eles quase como um exercício de aprendizagem, de humildade e de poesia.

NG – Num desses seus "exercícios" estéticos e existenciais, você teve uma sacada genial: relacionou a passagem do tempo à perda das certezas. E os ganhos? Haveria algum em amadurecer?

AC - Amadurecer é ganhar. Perde-se a juventude, as certezas vão-se embora, mas ganha-se experiência, rugas, peso e alguma autoridade. Hoje em dia, quando alguém me pede algo que considero chato ou absurdo eu digo – não posso fazer isso, sou uma senhora – e ninguém ousa retrucar, rs,rs.

NG – A idéia do heterônimo é ligada às noções de pluralidade, de multiplicidade – conceitos que têm muito a ver com as identidades deste contexto. Quais cores, imagens e palavras você usaria para pintar um painel do seu tempo?

AC - Acho que pintaria um painel como um borrão de algo que passou em alta velocidade, e usaria todas as cores. O tempo em que vivemos parece ser o mais veloz que consegue ser e mesmo assim anseia por mais rapidez. Eu gosto dessa idéia, mesmo com seus exageros e com o nível de superficialidade que parece predominar; prefiro o privilégio de viver em um tempo assim do que num tempo de marasmo. É bem verdade que não temos muitas alternativas já que as mudanças que precisam ocorrer têm de se darem rápido antes que o planeta seja exterminado.

NG – Partimpim é um sopro de vida nas imposições feitas pelo mercado globalizado. Em que sentido esse sopro alcança Adriana Calcanhotto, a outra?

AC - Nesse momento, quando tenho eventualmente que lidar com alguma coisa do trabalho Calcanhotto, sinto que há mais frescor, parece ser uma grande novidade pra mim e acho que isso é muito bom. O próximo trabalho Calcanhotto estará fatalmente marcado pela experiência Partimpim, principalmente no que diz respeito ao que posso obter dos músicos em suas performances em termos de liberdade e humor, e também em relação a mim. Acho que adquiri uma soltura maior como performer. Em relação ao mercado vi que mesmo sendo muito difícil é possível furar alguns bloqueios ainda que um projeto como este seja apenas um grãozinho de areia.

NG – É possível que outros heterônimos (“uma segunda pele”) venham a conviver com Adriana Partimpim?

AC - É terrívelmente provável, rs,rs....






quinta-feira, 2 de julho de 2009

Viagem Insólita






Entrevista realizada por Sheyla Azevedo com Nonato Gurgel
Natal, Diário de Natal, 18/10/1998







Quem é quem

Raimundo Nonato Gurgel Soares nasceu em Caraúbas /RN. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Formou-se em Letras, pela UFRN, e cursou mestrado em Literatura Comparada. É também escritor, e tem um livro de poemas a ser lançado: A golpe de íris. Colabora em vários jornais e revistas da cidade, como a revista Odisséia (UFRN) e Folhas de Relva (Escola Doméstica).


01 – Você é o que queria ser quando era adolescente?
- Não. Eu era um antigo lobisomem juvenil.

02 – Qual a melhor mentira?
- A criação artística.

03 – O que gostaria de ter feito e não fez?
- O filme Apocalipse now, do Francis Ford Coppola.

04 – Qual o seu sonho atual?
- O doutorado em literatura.
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05 – Conte um segredo de viajante.
- As impressões de viagem não pertencem ao viajante. São da paisagem.

06 – Qual livro você leu de um fôlego só e leria novamente?
- O Livro do Desassossego, do Fernando Pessoa.

07 – Quem mais o influenciou?
- Os professores: Ana Linda Guimarães, Socorro Rego, Maria do Céu Medeiros, Pe. Agripino, Tércio, Eduardo Assis Duarte, João Alexandre Barbosa, Ilza Matias de Sousa, Selma Calazans...

08 – O que você acha de pessoas louquazes? Cite uma.
São personagens necessárias. A Lúcia de Mulheres à beira de um ataque de nervos, do Almodóvar.

09 – Qual a melhor coisa do sexo?
- As conexões entre as 4 letras visíveis e os 5 fonemas audíveis.
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10 - Pessoas arrogantes e prepotentes merecem o que?
- Vivenciar o que apregoam em gestos e na teoria.

11 – Você gosta de ouvir pessoas que não sabem ouvir?
- Aprendi a deletar.

12 –Você tem medo de que?
- De vírus: de gripe, de computador, de paixão...

13 – Que tipo de música faz você sonhar com o paraíso?
- Paraíso é coisa para os deuses. Sonho, no máximo, com o inferno dantesco, ao ouvir as canções do Renato Russo em italiano.

14 – O que lhe seduz no jogo da criação?
- A mentira estética.

15 – Que tipo de música faz você ter pesadelos?
- Não tenho pesadelos, mas não curto música evangélica.

16 – O que existe de melhor no seu lado escuro?
- O nascer da luz.

17 – O imaginário apavora?
- Também. Além de erigir-me.

18 – Como você convive com os seus sonhos?
- Tecendo o futuro (depois que li Sonhos, Memórias e Reflexões, do Jung) e sempre lembrando um autógrafo que a Fernanda Montenegro me deu no camarim, em Natal: "Coragem! Porque sonho não morre." Ela escreveu isso depois de olhar no meu olho. Acho essa sintaxe um luxo, um mantra, um verso...

19 – Qual a pior verdade?
- A busca e a difusão da Verdade.

20 – O que você acha do dinheiro?
- É bom para os nervos; aciona nervuras.

21 – O que nunca deveria faltar?
- Certas coisas como nervos, nervuras, dinheiro...

22 – Quando você conta até 10?
- Quando alguém pergunta, boca no meu ouvido, por que uso boné à noite.

23 – O que anda sobrando por aí?
- Gente falando falando falando... contando historinhas.

24 – Qual a pessoa que você mais detesta?
- Tenho preguiça de detestar; demanda muita energia. Prefiro deletar!

25 – O que você nunca faria novamente?
- Dissociar a forma do conteúdo.

26 – O que a sua boca diz quando a alma grita?
- Quando a alma grita? Minha boca não diz: fica bem quietinha. É hora!

27 – Qual a palavra que nunca deve ser dita?
- Qualquer palavra redundante é uma desdita.

28 – Qual o mal deste final de século?
- A falta de interlocução? O excesso de fala?

29 – O que dói em natal?
- A falta de assinatura em parte da cidade.

30 - Em que situação você atira no escuro?
- Quando o escuro é signo.

31 – Qual dos 10 mandamentos você quebra?
- Os mandamentos são acordos ou pactos?