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segunda-feira, 22 de março de 2010

A infância das máquinas e a maturidade das letras

Em parte a gente é arte/ em outra parte, técnica

Antonio Cicero e Marina Lima, “Acende o Crepúsculo”


A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão। Só a maquinaria। E os transfusores de sangue.

Oswald de Andrade, “Manifesto Antropofágico”





Sabemos que, desde Aristóteles e sua Poética, arte e técnica têm tudo a ver (embora ambos os conceitos sejam hoje bem diferentes da Antiguidade Clássica). Sabemos também que, desde o final do século XIX, a linguagem – principalmente a linguagem literária - começou a ganhar um novo impacto a partir do desenvolvimento tecnológico. Isso foi intensificado durante todo o século XX com a instauração do que chamamos de Modernidade: uma estética que possui no ceticismo e no deslocamento duas de suas principais “senhas”.

A criação de objetos e máquinas como a lâmpada elétrica, o automóvel, o cinematógrafo, o vídeo, a TV e a máquina de escrever transformaram radicalmente os cenários e costumes da vida urbana. Nas cidades, as ações cotidianas – mediadas principalmente pela técnica - passaram a ser mais imediatas, o que de certa forma interferiu no ritmo da produção da escrita e na recepção das artes e culturas.

Também o aparecimento da imprensa diária contribuiu para a mudança de hábitos. Formou um novo tipo de leitor. Um leitor com um outro ritmo de leitura. Desde então, a literatura passou a ter uma forma mais apressada de recepção; e gêneros como o romance, por exemplo, sofreu influência do jornal. A literatura começava a perder a sua aura.


Uma nova sensibilidade no ar

Difícil não perceber que a entrada de tanta tecnologia em cena contribuiu para a mudança de percepção do sujeito. E a lição do crítico e pensador Walter Benjamin nos ensina que quando muda essa percepção, transformam-se os modos de existência da coletividade e os seus meios de produzir arte e cultura. Cria-se, com essa transformação perceptiva, uma re-leitura do contexto.


Para essa releitura do contexto, gosto muito de lembrar um autor que os jovens alunos adoram: o poeta Paulo Leminski, romancista que publicou em 1975 o denso e injustamente esquecido Catatau. Ele foi professor de História, ensaísta e tradutor de Petrônio, Joyce e Lennon, dentre outros.

Sintonizado com a concretude do seu contexto histórico e estético, Leminski leu Oswald de Andrade, e por isso sabia que a poesia existe na maquinaria e nos fatos. Por causa deles, os fatos, o poeta não perde a sintonia com o contexto, e sabe que não apenas as formas estéticas e culturais são históricas e mutantes, mas até os sentimentos, os nossos gestos... São as mutações identitárias dos filhos da modernidade e suas movências... Leminski leu Karl Marx, é claro. E escreveu um texto belíssimo, como diria minha querida amiga Tetê, chamado "Latim com gosto de vinho tinto".

Voltemos às novas sensibilidades que sedimentam as identidades modernas. Somos testemunhas de que vários fatos contribuíram para a produção de outras linguagens, além das mutações e alterações nos ritmos e tons do texto literário. Dentre esses fatos e mutações mencionamos:

- a leitura do jornal

- a possibilidade de observarmos imagens que se locomovem na tela - do cinema, da TV, do PC

- a transformação do ritmo temporal gerada pelos meios de locomoção

- a criação de uma escrita automática...

Esses são alguns dos fatos e/ou motivos que contribuíram para que o texto literário ganhasse uma outra oralidade e/ou um outro ritmo no início do século XX. Neste início de milênio, esse ritmo torna-se mais radical, a partir do advento da informática, dos roteiros da computação e da escrita virtual. Surge uma oralidade maquínica que gera outras modalidades de escrita.

Nada disso eu soube dizer quando defendi a “letra” contemporânea na Universidade. "Letra" essa sintomaticamente inscrita num Departamento de Tecnologias e Linguagens. Tudo a ver. Uma “letra” do meu tempo. Escrita com as tintas e as trevas do presente. Conteúdos mais voltados para os roteiros das novas tecnologias que se inscrevem, de forma irreversível, em nosso contexto histórico, estético e cultural. Isso porque muito me inquieta a distância que separa a subjetividade maquínica que aciona atualmente o nosso cotidiano, e o quadro de giz do século VXIII com o qual buscamos inscrever o universo de quem nos assiste.

Essa “letra” contemporânea faz-me pensar na palestra que o crítico George Yudice proferiu na UFRJ em 2009. O autor de A conveniência da cultura: usos da cultura na era global iniciou a sua comunicação ressaltando a importância dos professores e pesquisadores atentarmos para o universo dos jovens. Segundo ele, os jovens alunos devem ser inseridos "libidinosamente". Essa inserção tema ver com o fato de que, na sua opinião, "as mudanças culturais não estão relacionadas apenas com a cultura". Essas mudanças têm a ver com a escola e com as políticas educacionais, pois no atual contexto a cultura é lida como "prática material", e não apenas como uma abstração, um bem simbólico.

Professores gostam?

Segundo Yudice, a maioria dos professores não conhecem (ou não se interessam) pelas práticas culturais dos jovens contemporâneos: video-games, yotube, blogs, chats, MP-3, músicas no pc... Para ele, esse desconhecimento dificulta a interação entre mestres e alunos. Inseridos na atual "cultura do acesso", esses jovens sentem-se desinteressados pelo modelo proposto pela escola.

. Atentando para a importância dos suportes materiais e dos produtos midiáticos da cultura, o ensaísta ressalta "os lugares de socialização da internet". Para tecer relações com o atual contexto digital e midiático, onde novas tecnologias proporcionam o surgimento de outras sensibilidades, o crítico americano resgata a leitura que Walter Benjamin faz do flaneur e do seu trânsito no espaço urbano no século XX.

Segundo ele, a expressão dessas sensibilidades exige outros modos de percepção, outros meios de interação; assim como as formas perceptivas que o pensador alemão conseguiu captar nas primeiras décadas do século XX, principalmente através do cinema e da arquitetura. Principalmente através das Passagens de Paris, suas modas e mercadorias, e da poesia de Baudelaire.


Já ouvi muita gente boa dizer que, se vivo estivesse, Walter Benjamin leria hoje os shoppings... Tudo a ver. Ele sabia que o crítico é um leitor que rumina. Por isso precisa ter vários estômagos, múltiplos olhares... Benjamin sabia principalmente que a tecnologia circula na veia moderna escrevendo outra letra.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Notas sobre o Prefácio de As Palavras e as Coisas




Texto escrito e apresentado durante o Curso Estudos da Linguagem
UFRN, Natal, Maio de 1995



01 – No livro Borges: uma poética da leitura, o crítico Emir Monegal ressalta o “estímulo” que o escritor argentino despertou em autores das mais diversas áreas do saber. Dentre esses autores, o crítico destaca o filósofo francês Michel Foucault, cujo livro As Palavras e as Coisas inicia afirmando que a sua obra “nasceu de um texto de Borges”. Segundo Foucault, o escritor argentino cita, no referido texto, “uma certa enciclopédia chinesa” onde existe uma inusitada divisão dos animais.

02 – Na página 42 do seu livro, Monegal afirma: “É preciso observar primeiro que Foucault talvez devesse ter indicado, com mais precisão, que o texto que ele atribui a Borges é atribuído por Borges (“El idioma analítico de John Wilkins”, em Otras Inquisiciones) ao Dr. Franz Kuhn que, por sua vez, o atribui a “certa enciclopédia chinesa que se intitula Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos”. Encontramos aqui o recurso, tipicamente borgiano, da mise-en-abyme: a perspectiva infinita de textos que remetem a textos que remetem a textos.”

03 – Sem mencionar o título do texto borgiano, Foucault o tem como ponto de partida para a escritura de sua obra. Refere-se, no prefácio, ao riso provocado pelo texto de autor latino, cuja leitura suscita novas possibilidades de pensar. Para o filósofo, o texto borgiano “...perturba todas as familiaridades do pensamento.” (p. 5).

04 – Por mais de uma vez, o autor menciona o “mal-estar” causado pelo riso ao ler Borges. O riso provocado pelo texto que contém a divisão dos animais, evidencia a suspeita de uma “... desordem que faz cintilar os fragmentos de um grande número de ordens possíveis na dimensão, sem lei nem geometria, do heteróclito.” (p. 7).

05 – Segundo o Aurélio, heteróclito é o que “... se desvia dos princípios da analogia gramatical ou das normas de arte.” “Singular”, “Excêntrico” e “Extravagante” são adjetivos também atribuídos ao referido termo. Foucault refere-se ainda às “heterotopias” como algo contrário às utopias. Para o filósofo, aquelas “inquietam” porque “impedem” a nomeação (“isto e aquilo”), pondo em questão a sintaxe, a gramática, a linguagem. Já as utopias estariam relacionadas com a linearidade da linguagem; o que possibilita a construção de fábulas e discursos.

06 – As heterotopias desconstroem a ordem, criando outras possibilidades de leituras, a produção de novas relações e múltiplas formas de ordenar a linguagem, o mundo.

07 – O riso oriundo do texto borgiano é responsável pelo “mal-estar” “daqueles cuja linguagem está arruinada: ter perdido o “comum” do lugar e do nome. Atopia, afasia.” (p. 8).

08 – Lembremos uma das lições do Roland Barthes: “Fichado: estou fixado num lugar (intelectual), numa residência de casta (se não de classe). Contra isso, só uma doutrina interior; a da atopia (do habitáculo em deriva)”. Barthes afirma ser a utopia inferior à atopia; no que Foucault concorda ao afirmar o consolo oriundo das utopias, em contraste com a inquietação consequente das heterotopias.

09 – Segundo Barthes, a utopia é útil para fazer sentido. Heterologia é outro termo usado pelo autor de Roland Barthes por Roland Barthes ao referir-se a uma certa teoria textual. Para ele essa teoria possui relações com a deriva, a ruptura.

10 – Referindo-se à obra do poeta Sebastião Nunes, diz Ilza Mathias em Figuras e cenas Brasileiras: leituras semióticas de Papéis Higiênicos: “É a prática de uma tererodoxia face à ortodoxia institucional”.

11 – Questionar a ordem previsível e linear, estabelecer outras leituras.

- Heterotopia – Foucault
- Heterologia – Barthes
- Heterodoxia – Ilza

12 – Arnaldo Antunes:
“A vida que vai á deriva é a nossa condução/ Mas não seguimos à toa”

- Produção à margem do processo institucional?

13 – Retomemos As Palavras e as Coisas

O Prefácio de Foucault explica que esta obra teria como objetivo iluminar o “campo epistemológico” dos saberes. Entender a experiência da ordenação dos saberes no espaço da cultura ocidental, a partir dos estudos que remontam aos séculos XVIII (Classicismo, Revolução Francesa) e XIX (limiar da modernidade). A filologia (as palavras na sua origem), Economia e Política, Biologia e Arte são os principais saberes e formas lidos por Foucault.

14 – Segundo o autor de A História da Loucura (a história do outro, da diferença), As palavras e as coisas seria uma “história da semelhança”. Trata-se, neste livro, de estudar a cultura observando “a maneira como ela experimenta a proximidade das coisas, como ela estabelece o quadro de seus parentescos e a ordem segundo a qual é preciso percorrê-los”. (p. 13).

15 – O que parece determinar o critério temporal do Clássico e do Moderno escolhidos como base da escritura foucaultiana, é o fato de o autor ter como parâmetro a ideia da representação. A “história da semelhança”, do “mesmo”. É a partir daí que o autor considera o surgimento do “homem” na história do saber.

16 – A idéia da representação estaria relacionada às idéias de mimese, imitação, verossimilhança postuladas por Aristóteles em sua Poética (p. 12 do Prefácio).

17 – Ao distorcer a classificação animal, Borges nos remete ao oriente. Denomina a China (já que a divisão dos animais acontece numa enciclopédia chinesa) como espaço mítico, “solene”, antagônico ao nosso. Naquele espaço, é sempre possível nomear, falar, pensar por meio de outras formas de sistematização. Foucault cita a escrita chinesa como exemplo, já que esta prática cultural “... não reproduz em linhas horizontais o vôo fugidio da voz... “ (p. 9).

18 – Ou seja: o ideograma chinês permite que a leitura seja feita de forma simultânea. Com base nesta constatação, Foucault contradiz Saussure e sua crença na noção de linearidade.

19 – Para o filósofo francês, toda experiência, toda similitude, cada distinção resulta “de uma operação precisa e da aplicação de um critério prévio.” Conclusão: “um sistema de elementos é indispensável para o estabelecimento da mais simples ordem.”

20 – A “arqueologia” proposta por Foucault visita o “espaço geral do saber”. Busca a definição de “... sistemas de simultaneidade” e as “mutações necessárias” “para circunscrever o limiar de uma positividade nova.” (p. 12).

21 – Em Borges: uma poética da leitura, Emir Monegal afirma: “Foucault ... aponta para o centro da escritura borgiana: uma empresa literária que se baseia na “total” destruição da literatura e que, por sua vez, paradoxalmente, instaura uma nova literatura; uma “écriture” que se volta para si mesma para recriar, com suas próprias cinzas, uma nova maneira de escrever; uma fênix, oh, não muito freqüente.” (p. 44).


BIBLIOGRAFIA

BARTHES, Rolando. Rolando Barthes por Roland Barthes. Trad. Leyla perrone moisés. São Paulo, Cultrix.

FOUCAULT, Michel. “Prefácio” in As Palavras e as Coisas. Trad. Selma Tannus Muchail. 6ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

RODRIGUES MONEGAL, Emir. “A heterotopia borgiana” in Borges: uma poética da leitura. Trad. Irlemar Chiampi. São Paulo: Perspectiva, 1980.

SOUZA, Ilza Matias de. “Figuras e cenas brasileiras” in Figuras e cenas brasileiras: leituras semióticas de papéis Higiênicos (Dissertação de Mestrado).

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Amizade: tempo, tempero, temperatura



Quebraste um telhado
Que nas noites de frio
Te servia de abrigo
Feriste um amigo...
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“Atiraste uma pedra”, dos compositores Herivelto Martins e David Nasser, é uma das muitas canções de nossa música que possuem amizade como tema. A Música Brasileira sempre foi profícua em cantar o sentimento da amizade: “Amiga”, “Meu amigo, Meu herói”, “Falou Amizade”, “Amigo é para essas coisas”... são canção que atestam esse entoar amigo.

Na canção “Língua”, por exemplo, Caetano Veloso é bastante provocativo ao cantar “e quem há de negar que esta lhe é superior?”, indagando uma suposta superioridade da amizade sobre o amor. Tenho uma amiga que faz uma bela releitura daquela antiga “Canção da América”, do Milton Nascimento. Segundo ela, “amigo é coisa para se guardar no corpo inteiro, e não apenas do lado esquerdo do peito”.

Como objeto de reflexão, do afeto e da ação comum, as relações de amizade renderam muitas páginas na Literatura e na Filosofia. Nos livros oitavo e nono da Ética a Nicômaco, Aristóteles trata do tema da seguinte forma:

... para o amigo se deverá com-sentir que ele existe, e isso acontece no conviver e no ter em comum ações e pensamentos. Nesse sentido, diz-se que os homens convivem e não, como para o gado, que condividem o pasto.

A partir dessa sacada aristotélica, o filósofo italiano Agamber vai dizer que os amigos repartem a própria vida. Nessa leitura, a repartição significa o próprio ato de existir. Para o filósofo da desconstrução, Jacques Derrida, o sentimento da amizade requer investimento; envolve várias dimensões temporais: A amizade não é nunca uma coisa dada no presente, ela faz parte da experiência da espera, da promessa ou do compromisso. Seu discurso é o da oração, ele inaugura...

Jorge Luís Borges, o maior escritor da América Latina, manda essa quando a amizade entra em cena: Não sei se a amizade é muito diferente do amor. Talvez não. ...É possível que a amizade seja superior ao amor. (Dicionário de Borges). Quem também celebra com ênfase o sentimento da amizade é o poeta Paulo Leminski. Ele amava línguas e artes, e utilizava nas suas relações amigáveis os mesmos elementos da sua atuação estética e disciplina marcial: magia, estratégia, tática e técnica. Chama-se “De homem para homem” o texto no qual o poeta tematiza a amizade.

Esse texto encontra-se no livro póstumo Gozo Fabuloso. Nele Leminski narra de forma ágil e afetiva: de homem para homem quem trança os laços é a ação. Sobretudo, a ação por excelência, que é a guerra, o conflito real, matar ou morrer. ... o western é uma exaltação da amizade entre os homens, do afeto gerado na ação conjunta, na fraternidade do combate... Embora seja bélica a narrativa do poeta, ele desdenha manobras, males cruciais e jamais se atem às circunstâncias. O poeta sabe que a amizade é atemporal. Ela pode transformar em fala e ação o que ora é apenas suspiro, proposição.

Independente do contexto, gênero ou classe social, as relações de amizade são dialógicas, produtivas, subjetivas. E como a subjetividade e o dialogismo são produtos históricos que envolvem ética, estética e identidade, dá para perceber porque amizade, arte e filosofia rendem infindas parcerias ao longo da história da raça humana.

Arte da camaradagem e do tempero na temperatura acesa, a amizade é capaz de mudar hábitos, esculpir corpo, pro-mover uma nova estação. Não importa se alcança apenas o lado esquerdo do peito ou se inunda o corpo inteiro, como recanta a minha amiga aquela canção do Milton. Na lição do amigo, saboreia-se o azeite, o mel, o chá... Aprende-se a ler os signos da sintonia, dos sabres de luz, do eterno retorno.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Marco Lucchesi e a metafísica das alturas




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Uma versão desta resenha foi publicada no jornal O Globo, Rio de Janeiro, 24 de Janeiro de 2004

A poética do distanciamento construída pelo escritor
aproxima e leva o leitor ao “céu”

Sphera é o primeiro livro de poemas de Marco Lucchesi, depois que ele publicou os seus Poemas Reunidos. Nesse volume editado em 2000, e que contém a sua já vasta fortuna crítica, a ensaísta Constança Hertz diz dessa poética “feita de alturas vertiginosas e de abismos... onde “o impossível existe e assume a forma perene...”.

Essas “alturas”, esses “abismos” e essa forma do im - possível permeiam toda a poética de Lucchesi, e continuam presentes neste livro de 2003. Essa Sphera grafada cor de sangue sobre capa branca não é um título qualquer; possui uma longa história. O vocábulo, assim como o poeta e o poema, atravessa séculos. Sua origem vem do “latim tardio”, segundo a lição do professor e pesquisador clássico Henrique Cairus. Seu significante sugere uma feliz polissemia que perpassa o substantivo esfera, o adjetivo ex-fera e o verbo espera, dentre outras possibilidades de leituras.

Se nos guiarmos pelo eu poético e levarmos em conta o seu significante primeiro (“aqui me sinto/ mais/ substantivo”), veremos que a forma esférica anuncia uma boa cota de lirismo:

Teu rosto acende meus sonhos
de reparação
algo me atinge me confunde e me arrebenta
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A forma sugerida pelo substantivo esfera expressa “uma grata ancestralidade romântica”, como diz Eduardo Portella no prefácio deste livro. Já na leitura das três epígrafes que abrem o volume, há ecos naturais e subjetivos do universo do Romantismo: “um campo de sossego” de onde brotam “silêncios”, solicita que “sejamos” - resumem essas epígrafes.

Para adentrar este universo estético e conjugar o verbo ser, o eu lírico acerca-se do provisório que há no sossego dos homens e no silêncio com o qual eles dialogam com as coisas. O poeta sabe que a superfície guarda preciosidades. Prova concreta disso é o poema, quase invisível, na capa do livro, falando de segredo e palavra. Desta Sphera ouvimos uma tonalidade bem mais harmônica e sossegada que a multiplicidade de tons e timbres (líricos, religiosos, épicos, dramáticos...) da prosa poética e memorialística de Os Olhos do Deserto (2000), livro cuja composição inclui trechos de diários e anotações de cadernos de viagem, dos quais emanam múltiplos saberes e diferentes registros existenciais. Agora, o poeta apresenta uma linguagem cada vez mais concisa e encapsulada. Essa concisão possibilita o diálogo entre o moderno verso branco com formas clássicas como o soneto.


Quando a palavra beija a jugular


Por meio desse diálogo entre formas diversas, Marco Lucchesi erige a sua “metafísica das alturas”, em sintonia com as batidas do coração do firmamento. Embora a leitura dessa “metafísica” sugira uma dimensão poética eminentemente platônica, é bom atentar para a forma como o poema constrói-se. Essa construção acontece de olho na concretude do que se encontra no entorno, na superfície; como demonstram as figurações maquínicas e corporais a seguir:

Sobem

inacessíveis

minaretes ávidos

de altura e de infinito
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e a veia jugular
mais próxima que os céus


Estes belos versos resumem a “soma das distâncias” de que é feita esta poesia. Se as distâncias de Sphera desejam uma ordem, esse desejo existe em sintonia com o corpo em suas relações pulsantes e cotidianas. O texto da “veia jugular” é, nesta espera, próximo ao céu. Neste sentido, é possível que a pulsação da jugular evoque a altura dos minaretes. Quando essa evocação aciona a torre, a palavra beija a jugular. Beija também os minaretes que sugam, há séculos, a luz, e devolvem essa luminosidade ao olhar faminto e detetivesco que os contempla com desejo de escritura.

A travessia entre a universalidade das alturas (a fixidez dos minaretes) e a singularidade da condição humana (a movência pulsante da jugular) acionam distâncias. São estas distâncias que aproximam o paladar de quem bebe “a baba do dragão”, do paladar de quem saboreia a “saliva dos deuses”. Na travessia entre o universal e o particular, entre o animal e o divino, a leitura das distâncias aproxima o poema e o leitor. E a partir do que está próximo, Lucchesi constrói, com sua matemática subjetiva, uma poética do distanciamento.

Há nessa poética o adiamento dos dias e sua “fome de distãncia”. Saudades do Paraíso (1997) em oposição à saudade do futuro. No tempo presente, os homens e as coisas operam sua fugacidade, quando “sobre/ vive o risco da distância.” No fim, todo esse distanciamento termina aproximando e levando o outro – o tradutor, o leitor, o resenhista – ao “céu (versão literal)”:

E o mesmo rio-palavra respira essas distâncias: as lágrimas de Camões e a brisa dos Sertões (água escrita de terra!)...

Parece haver entre as águas lusas e a terra euclidiana as mesmas distâncias que aproximam, em Sphera, a multiplicidade filosófica de Lucchesi que explode poeticamente de formas platônica e aristotélica. Platonicamente, essa explosão é sugerida perto de “um rebanho de/ palavras junto/ ao rio/ e um lobo i-material”. De Aristóteles, o poeta herda a admiração, o espanto e a capacidade de assombrar-se com a concretude noturna do cotidiano. Nesta distãncia poética vale tudo. Menos o discurso previsível das extremidades, como anuncia o poeta luminoso e faminto: “invoco/ uma palavra// que me salve/ dos extremos.”

domingo, 28 de junho de 2009

Nada de mergulho: sobre Macau




Uma versão desta resenha foi publicada em 2004 no Fórum Virtual O que é literatura – PACC/UFRJ
http://www.pacc.ufrj.br/literatura/arquivo/index.php


A escuridão começa pelas bordas
e vai seguindo até chegar ao centro,

lá onde uma semente aguarda a hora,
tranqüilamente, sem medo do escuro:
pois é da natureza das sementes

se afastar da luz, mergulhar no úmido,
sepultar-se por toda uma estação.
No entanto, neste caso a escuridão
é de outra espécie, mais seca e mais rasa,

uma que avança devagar e sempre,
alheia a qualquer propósito ou causa,
Até só restar pedra sobre pedra.

Mas a semente espera. Ela é insistente,
e acerta mesmo sem saber que erra.


I

Lançado em 2003 pela Cia das Letras, o livro Macau sugere, já na superfície luminosa de sua capa, e na portabilidade do seu projeto gráfico, o que aguarda o senhor leitor hipócrita e cúmplice do poeta e tradutor Paulo Henriques Brito:

Nada de mergulhos. É na superfície
que o real, minúsculo plâncton, se trai.


Esses dois versos - de um dos DEZ SONETÓIDES MANCOS, o VI mais exatamente - estetizam aquilo que a orelha de Macau entrega: o poeta alimenta-se da matéria nossa de cada dia. Sua escrita brota bem ali, do "cais raso da subjetividade". Também vem da orelha do livro a audição de uma outra senha desta poética que é um elogio à oralidade ao conectar "rigor formal e desordem cotidiana".

Essas conexões entre o "raso" - a superfície, a pele - e o que a estrutura corporal capta e fabrica, em termos de forma estética, é visível na grande maioria dos poemas. Isso pode ser aferido, por exemplo, no cabralino poema V da FISIOLOGIA DA COMPOSIÇÃO:


É preciso que haja uma estrutura,
uma coisa sólida, consistente,
artificial, capaz de ficar
sozinha em pé (não necessariamente
exatamente na vertical), dura

e ao mesmo tempo mais leve que o ar,
senão não sai do chão. E a graça toda
da coisa, é claro, é ela poder voar,
feito um balão de gás, e sem que exploda
...


O leitor não se engane: nesta poética onde a "coisa" voa, não há sentimento alado nem coração algum explode. Macau é território da contenção e da brevidade de quem traduziu, dentre outros poetas, Emily Dickinson, Wallace Stevens e Elizabeth Bishop. Espaço da semente contida que aguarda de forma irônica, humorada, na umidade abaixo da pedra. Da leitura de DE VULGARI ELOQUENTIA, por exemplo, emerge a imagem dos ombros drummondianos que foram estetizados como suportes existenciais do século XX, no tempo em que a vida era uma ordem. Na poética de Paulo Henriques Britto os suportes são outros. Em seu texto, nenhum "José" "está sem assunto". Isso acontece porque são as palavras - e não os ombros - que suportam o mundo; este mesmo mundo que o poeta outorga ao desejante leitor, num dos DEZ SONETÓIDES MANCOS, indagando se ele, o senhor leitor, vai "comer" "aqui e agora" ou prefere "pra viagem". O "sonetóide" sugere um possível diálogo com o poema "Cantiga de Enganar", do livro Claro Enigma, onde o poeta de Itabira treina leveza, aprende a rir e diz: "O mundo não vale o mundo, meu bem".

Humor e ironia dialogam nessa seqüência inicial de textos que inclui BAGATELA PARA A MÃO ESQUERDA e as TRÊS TERCIANAS (principalmente a primeira). A leitura desses poemas sugere ser essa metalinguagem mais produtiva e bem humorada, caso o leitor possua repertório para reler alguns dos procedimentos estéticos caros às poéticas da modernidade que atravessaram o século XX.


II


Em "Biodiversidade", primeiro texto deste volume, uma "fala esquisita" sugere uma voz "do outro lado da linha formigando de estática". Inscrita num invisível espaço úmido tal qual a semente em seu mergulho ao afastar-se da luz, essa voz possibilita ao leitor um intertexto com outras vozes díspares. Vozes que se inscrevem a partir de diferentes figurações espaciais. Essa inscrição não rasura a superfície ("só o raso é cool"), mas o mergulho expressivo, aqui neste "império" sonoro onde "a dor é kitsch" e o que se sente, atropelado. Nestes textos, o espaço faz aflorar gestos feito sementes que avançam em diferentes ritmos, alheias a quaisquer propósitos ou covas. Pactos, lábios e epifanias podem resgatar, entre o amor e o asco, a porção romântica que ronda o leitor de poesia contemporânea:

Porque nenhum descobridor na história

(e alguém tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.

Desse cais, o poeta traduz a afetiva lição do humor e da curva; remete ao mundo sua carta historiando múltiplos espaços e diferentes concepções temporárias. Diferentemente do poeta aristotélico, sua história não "narra" o futuro de pretérito, mas os vários tempos de que se fazem sua poesia. Principalmente o presente. E mesmo que o seu verbo encerre algumas seqüências de mini núcleos temáticos repletos de não e nada e nunca, ele se anuncia prenhe de sementes e suportes. Porque esse "descobridor" que não se desprende de seu "cais", navega as águas da alteridade "à mercê do latejar de um músculo". E esse latejar traduz uma certa oralidade cotidiana na qual o leitor deste início de milênio se reconhece muito bem. E vivo.


quarta-feira, 17 de junho de 2009

Escritos para todas as áreas e todos os humores

Publicado na Revista Calíope Presença Clássica n 15,
Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas - UFRJ
Rio de Janeiro, 2006


Lançado pela Coleção História & Saúde da editora Fiocruz, o livro Textos Hipocráticoso doente, o médico e a doença, de Henrique F. Cairus e Wilson A. Ribeiro Jr., é um volume que se destina a leitores não apenas dos universos das Letras e da Medicina. Embora na Apresentação do livro os autores sugiram serem seus textos fontes de “referência para várias áreas do saber, especialmente para a história, para a filosofia e para a antropologia”, é importante ampliar essa referência para os leitores interessados nas histórias da ciência e do pensamento ocidental, o que inclui os profissionais de todas as chamadas ciências humanas.


A ampliação desse raio de leitores justifica-se por, dentre outros, dois bons motivos: primeiro, pelo rigor acadêmico e pela projeção didática que o texto ostenta, seja na clareza dos seus raciocínios, seja nos procedimentos da forma, nas notas informativas, na construção do glossário, na seleção das epígrafes ou na pesquisa bibliográfica; segundo, pelo perene questionamento em torno da revisão historiográfica e das noções de autoria e tradução que este livro propõe ao referir-se ao seu corpus. Essa dupla de motivos vai ao encontro do leitor que deseja tratar com precisão o que escreve ou projeta, e pode mexer com as inabaláveis certezas daquele leitor sempre apto a acreditar nas idéias de origem e paternidade textual.



Como sabemos, a releitura das noções de autoria e originalidade textual, a revisão historiográfica, os estudos dos escritos apócrifos e as pesquisas em torno de como o texto adquire o seu “estatuto da verdade” são questionamentos contundentes propostos pela pós-modernidade. Algumas dessas questões encontram-se aqui e podem ser redimensionadas no testemunho do professor Dr. Henrique Cairus: “Desde Aristóteles, havia sido negligenciada a contribuição do Corpus Hippocraticum para o pensamento, que em muito sempre ultrapassou o que dali poderia se valer exclusivamente a medicina”.



Essa ultrapassagem a qual se refere o autor pode ser aferida nas traduções que ele estabelece para textos como “Da natureza do homem”, “Da doença sagrada” e “Ares, águas e lugares” – tratados cujas leituras podem ser cotejas com o original em grego que o livro apresenta. Esses escritos estão incorporados na “memória da medicina”, juntamente com os juramentos, as leis, os preceitos médicos e as observações acerca dos doentes, o que amplia o interesse sugerido pelos Textos Hipocráticos. Neles encontram-se, dentre outros, “os alicerces práticos da ética médica” e as noções de cura, além da audição de um profícuo diálogo com o classicismo grego.


Desse diálogo entre o Corpus Hippocraticum e o período clássico ecoam antigas vozes inscritas ao longo da história pela tradição ocidental. São vozes de personagens míticos, literários e históricos, a maioria deles conhecidos do leitor das ciências humanas. Dentre esses personagens, destacam-se Hipócrates, Aristóteles, Eurípedes, Helena da Odisséia de Homero ou Gaya – a deusa grega que personifica a terra. No final do volume, um generoso glossário dá a ficha sucinta de cada um deles.


Pelas águas de todos os deuses


Abre o volume um texto do mestre Wilson Ribeiro sobre a fama e as lendas em torno de Hipócrates de Cós – o pai da medicina. Suas muitas vidas (ele morreu com 104 anos?) e as muitas dúvidas acerca da autoria dos seus textos levam o autor a afirmar: “Ignoramos também se ele chegou a escrever realmente alguma coisa”. Outra informação inusitada é a descoberta de que as cartas trocadas entre Hipócrates, Artaxerxes e alguns outros intermediários, possuem valor estético e “constituem o primeiro romance epistolar da história da literatura ocidental”.


Apesar dessas cartas não possuírem valor biográfico e das datas do nascimento e da morte do autor serem bastante controversas, os Textos Hipocráticos são documentos contundentes; não há como duvidar da existência e da obra de Hipócrates de Cós. Falam em nome dele os vultos mais exaltados e relidos do nosso cânone estético e filosófico, como demonstram neste livro os intertextos com Platão, Aristófanes e Aristóteles, por exemplo, nas suas especulações em torno das idéias de Hipócrates e seus escritos.


O Corpus Hippocraticum intitula o segundo capítulo do livro e tem a rubrica de Dr. Henrique Cairus, professor de Língua e Literatura grega da UFRJ. Nesse texto o autor explica, dentre outros, a composição (sessenta e seis tratados) e o valor da coleção hipocrática, outorgando a Erotiano – médico grego de Alexandria – a paternidade desse Corpus Hippocraticum escrito em jônico, idioma no qual também escreveram filósofos como Parmênides e Demócrito, dentre outros. Ressaltando “o status quo de que a poesia gozava à época de Hipócrates”, Cairus constrói um texto que dialoga com as epopéias fundadoras da literatura ocidental, destacando na Ilíada e na Odisséia de Homero as falas que atestam a supremacia dos médicos sobre os guerreiros.


Chama-se “Da natureza do homem” a primeira tradução feita por Cairus. Na introdução que escreve ao texto o autor tece curiosas observações em torno da questão da autoria, e da inexistência de preocupações estéticas nesse tratado. Além disso, uma leitura temática propõe a saúde do homem como vetor dessa escrita e destaca as febres e bílis como temas. O texto estabelece relações corporais com o tempo e a natureza, erigindo de forma didática o roteiro que as veias traçam pelo corpo. Destaca também a sintonia entre as quatro estações do ano e a teoria dos quatro humores: sangue, fleuma, bile amarela e bile negra – “o mais viscoso dos humores contidos no corpo e o que produz sede mais duradoura”. Esse tratado ensina também que provém da bile a maioria das nossas febres, e que a falta ou o excesso de um desses quatro humores patrocina a doença humana. Nesse tratado o leitor depara com uma frase capital: “E tudo o que sai pela violência, torna-se mais quente, forçado pela violência mesma”. Lição do texto: quanto mais frio, mais próximo está o homem do seu último dia.


“Ares, águas e lugares” não é apenas um belo título. Trata-se de um escrito peculiar que influenciou, dentre outros, o pensamento platônico. Segundo a leitura introdutória de Cairus que o traduz em parceria com a professora Tatiana Ribeiro, especialista em Heródoto, o tratado “dirige o seu olhar laicizante para a leitura da alteridade”. Além desse olhar, reflete o texto o diálogo entre o homem, o espaço, o tempo e as formas.


Na leitura dessas relações, evidencia-se a sintonia entre o ser e a terra, as estações do ano e as doenças, a temperatura dos ventos e a saúde. Relações são também tecidas entre os vários tipos de águas (“As pluviais são mais leves e mais doces”), as posições da cidade (em relação ao sol e aos ventos), o estilo de vida de seus habitantes e o que os nutre. Nutridos desse repertório que a tradição clássica recorta e repassa ao longo dos séculos, recordemos o poeta Paulo Leminski - leitor do imaginário grego e seus mitos. Afirmando que esse imaginário foi "o primeiro alimento do poeta ocidental culto, seu soft-ware de fantástico", o poeta e ensaísta de Metaformose diz que os gregos parecem ter imaginado todo o imaginável. Esses Textos Hipocráticos ratificam, de certa forma, essa assertiva do poeta.