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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Osso, luz


...
e pode às vezes
(o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
ou quem sabe
uma vida

Esses versos de Ferreira Gullar fazem parte do poema “Inseto”. Esse poema está no livro “Em alguma parte alguma” que o poeta acaba de lançar. O livro faz parte de uma extensa bibliografia composta de diferentes formas como poesia, música, literatura infanto-juvenil, teatro, crônica, tradução, ficção...

Dentre os livros de poesia de Ferreira Gullar, três títulos podem ser lidos como textos representativos da poesia moderna produzida no Brasil: “A luta corporal”, “Dentro da noite veloz” e “Poema Sujo”. Muitos temas e formas desses volumes publicados na décadas de 60 e 70 estão no livro “Em alguma parte alguma”. Aqui temos novamente as frutas podres na quitanda ou amadurecendo sobre a mesa, vemos os velhos personagens do Maranhão, lemos nomes de ruas do Rio, relemos bichos (haja gato, aranha, rato...) e, dentre outros, um infindo exercício metalingüístico através do qual a trindade corpo-poema-cidade ganha vida e dialoga sem subordinação lingüística ou estética.

Esse diálogo entre o corpo, o poema e a cidade vivifica o ser e estar no espaço cotidiano. A vida vira um problema de linguagens e espantos. O escuro ganha necessidade de forma, como na abertura do poema “Bananas podres 4”: “É a escuridão que engendra o mel/ ou o futuro clarão no paladar”.

É do sol cotidiano que Gullar desentranha grande parte da sua poesia. O poeta sente na boca “o alarido do sol”. O cotidiano é sugado pela boca, pelo olho. Paladar e visibilidade engendram esse cotidiano do poeta moderno romanticamente atravessado por relâmpagos e clarões. Muitos relâmpagos. Pequenas epifanias. Não as epifanias à lá Clarice e Caio onde a luz atravessa, geralmente de forma atordoada e sã, o corpo de quem vê e frui. Em Gullar a luminosidade faz sua travessia nas próprias coisas, no cotidiano mais chão, de onde brota uma poesia feita de pequenos esplendores, assim:
...
mas o perfume daquelas frutas
que feito um relâmpago
desceu na minha carne
... volta a esplender

A juventude não é tudo

No próximo dia 10 Gullar completa 80 anos. Merece todas as comemorações, prêmios e reflexões. Na leitura madura (“A maturidade é tudo”) de Alfredo Bosi que abre o livro, o crítico indaga se materialismo e metafísica “podem conviver em amorosa tensão”. Concluída a leitura de “Em alguma parte alguma”, o leitor sabe que pode conviver sim. Pode casar luz e osso. Pode sugerir relações estéticas, filiações literárias que não acabam nunca.

Mas nesta poética onde Bosi ouve Drummond, meu ouvido escuta Cabral (embora uma tonalidade concretista ecoe de quando em vez dos muitos versos entrecortados, de algumas palavras fragmentadas ou de algumas estrofes alinhadas como nos tempos que o mundo era concreto). Dessa fonte ecoam, desde há muito, “Barulhos”, “Muitas Vozes”...

sábado, 7 de agosto de 2010

Sentimento do tempo

Resenha publicada no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 24 de Julho de २०१०


Quem conhece a produção ensaística e/ou assistiu a cursos e conferências do professor e escritor Davi Arrigucci Jr. sabe do cânone moderno e particular que ele vem recortando ao longo das quatro últimas décadas. Desse cânone fazem parte alguns dos nomes mais representativos das letras no século XX, como Walter Benjamin, Paul Valéry, Antonio Cândido, Jorge Luís Borges, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira e Carlos Drummond, dentre outros.

Assumidamente lidos de forma afetiva e pessoal, esses e outros autores estão de volta neste livro “O guardador de segredos” de 2010. Nele, a maioria dos textos – escritos nesta primeira década do século XXI – ratifica o método comparativo utilizado pelo professor aposentado de teoria literária e literatura comparada.

Essa metodologia compara autores e gêneros, textos e procedimentos, contextos históricos e estéticos. Munido dela e de um cabedal de leituras da tradição, Arrigucci ensaia acerca de escritores e gêneros de diferentes épocas analisando, dentre outros, a epopéia, o romance, a ironia e a sátira. Objetivando uma “visão intuitiva do todo”, ele atenta para as formas de construção e de recepção das obras. Aponta para as semelhanças e diferenças entre algumas dessas obras e entre os procedimentos estéticos e culturais utilizados por autores como Rachel de Queiroz e Dyonélio Machado.

O diferencial das leituras comparativas e das linguagens contemporâneas criadas por Arrigucci está presente logo no ensaio que abre o livro, onde a poesia lírica e reflexiva de Drummond filia-se à poética romântica alemã. Esse diferencial comparativo leva em conta o sentimento do tempo presente e perpassa vários escritos, culminando nas leituras de Guimarães Rosa e Juan Rulfo – dois autores antenados com as experiências da oralidade e da memória.

“Sertão: mar e rios de histórias” e “Fala sobre Rulfo” são textos que alumiam. No primeiro, Arrigucci lê a travessia romanesca no “estilo tão estilo” da narrativa de Guimarães Rosa. No segundo ensaio tece comparações entre “Grande sertão: veredas” e “Pedro Páramo”, lendo as identidades dos jagunços e camponeses mexicanos; além de arengar com parte da crítica leitora de Rulfo (principalmente com a leitura do exímio ensaísta Emir Monegal).

Miradas poéticas, vejam

Desde que lançou em 1990 o ensaio “Humildade, paixão e morte” sobre a poesia de Manuel Bandeira, Arrigucci foi aclamado um dos melhores críticos do Brasil. Apoiada na história, sua leitura revela. Em “O guardador...” essa revelação é visível logo na primeira parte do livro, onde diferentes poetas como João Cabral e Roberto Piva ganham leituras atentas à experiência histórica da modernidade tendo na forma o ponto de partida.

Como o Drummond reflexivo, contraditório e romântico, Arrigucci reflete sobre segredos e enigmas (“não existe interpretação definitiva porque o enigma é inesgotável”). Desentranha aos poucos a sua lógica interna e histórica, audível em trechos como este: “Gullar ouve as vibrações do mito, mas tem os pés no chão e a escuta dos homens.”

“O guardador de segredos” é título de um belo e denso ensaio sobre a poesia de Sebastião Uchoa Leite. Nele, Arrigucci lê o imaginário de uma poética urbana que é atravessada pela “sombra, o fascínio difícil”. Nessa travessia, o ensaísta atenta para os “fluídos orgânicos que tanto falam à imaginação...”, sem perder o tom da experiência. Essa tonalidade é audível numa linguagem que “puxa para o chão a espiritualidade elevada dos olhos...”, de ouvido atento aos monstros produzidos por Dona Razão.

Sem aura, plugada no chão de onde brotam o grotesco e seu reverso, o afetivo e o bélico, a poesia adentra o “inferno da linguagem”. Atento a essa realidade que provoca e pode fazer delirar, Arrigucci é um dos poucos críticos brasileiros que assume transitar pelo espaço imaginário: “O poder ser é o lugar da imaginação”. Um imaginário brotado do “chão histórico”. Nele o guardador finge revelar completamente os segredos da “linguagem mais condensada” que a experiência do homem criou: a poesia.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Resina de Diva











Sou leitor de Diva Cunha, das antigas. Lembro de uma rede em Pureza-RN onde li-ouvi, numa revoada, o seu Canto de Página. Em 2001, quando apresentei num congresso na UFMG o texto “O mais profundo é a pele”, tratei da poesia feminina contemporânea destacando poemas de dois livros de Diva: Canto de Página (1986) e A palavra estampada (1993).

Na leitura que empreendi em torno desses poemas, tinha como base a noção da consciência corporal como procedimento estético. Lendo o corpo como espaço de estetização do desejo, via na poética de Diva Cunha a criação de um texto que simula o corpo que o produz, atentando para a dimensão poética e ontológica desse corpo. Por isso usei como título para o meu texto Diva da consciência corporal do poema.

Com base nesta “consciência”, desejo um dia escrever um ensaio sobre essa poética que tanto prazer nos dá. Foi pensando nisso que comecei a ler Resina. Logo nos primeiros versos, percebo que essa consciência corporal continua acesa. As figurações do corpo e do desejo são estampadas num recorte vocabular repleto de barra de saia, saliva, sangue, veias, rugas, “carne, semente, sumo, odores”... Essas figurações corporais e desejantes podem ser aferidas nos seguintes versos de Resina:

...
cada célula é uma asa
despetalada para o vôo
...

@

Deus me mantém
viva e ocupada
com as coisas da carne

@

...
A carne cresce em silêncio
flor carnívora

Este quinto livro da poeta anuncia, já no título, as conexões existentes entre a seiva do corpo que cria e a matéria estética que ele próprio produz. Isso pode ser aferido, de forma referencial e denotativa, na Resina como verbete de dicionário: “Substância inflamável, consistente e untuosa, que corre naturalmente... do caule de algumas plantas; substância análoga, de origem animal.”

Ou seja: de saída, a poeta já nos brinda com um título cuja definição tem tudo a ver com o conceito da própria poesia. Poesia na sua forma mais concreta (de filiação assumidamente cabralina) e contemporânea. Poesia que é seiva; seiva que se faz forma. Como forma que possui na consistência e na possibilidade de untar o seu ethos, o poema de Diva é irrigado pela seiva de várias substâncias, extrapolando o plano referencial do dicionário. Sua Resina molda. Dela “um sumo forte escorre”. Ela contém matérias de diferentes reinos e elementos que afloram durante a leitura, como podemos ler neste poema curto e denso:

Só na terra
o corpo encontra
exata medida
que transforma
a carne em flor
a morte em vida

Espanto da carne

Indagada numa entrevista de 2009 acerca das suas maiores “fontes de inspiração”, Diva Cunha respondeu nesta ordem: “O meu dia-dia, o universo feminino e Natal.” Essa resposta ratifica a inscrição de uma metalinguagem erótica e corporal na sua poética quando lemos em Resina: “O corpo contém/ o pequeno mundo de cada dia”. Os dois versos inscrevem, na dimensão temporal do poema, o corpo da mulher florescendo na cidade que serve de “fonte de inspiração” para a sua escrita.

As relações entre o corpo e o plano da escritura desdenham as abstrações em prol da matéria de que é feita o poema: “eu era só carne/ nem tinha alma para perder” ou “Em quantos pedaços repartir a pele/ que cobre o espanto da carne?” Muitas podem ser as respostas. Uma delas é sugerida pela poeta ao inscrever as poéticas de sua formação.

Resina traz, em seus múltiplos roteiros metalingüísticos, os mestres que nutriram o corpo do poema de Diva. Ecos de Manuel Bandeira, Cecília Meirelles, Carlos Drummond, João Cabral, Murilo Mendes e Ferreira Gullar são audíveis e estampados em vários cantos de página de Resina. A seiva deles está em Diva.

Essa seiva transforma-se em Resina. “Inflamável, consistente e untuosa”, a matéria inscrita por Diva irriga a tradição e nutre as veias de quem lê. O leitor sabe que enquanto a carne continuar espantada, a palavra terá a sua estampa. Sabe também que o espanto do corpo esculpirá madeira nova. Cheia de seiva.

sábado, 7 de novembro de 2009

A exatidão na nuança



...esta ‘angústia da exatidão’ está
no processo da minha escrita; ...às vezes,
ela (a angústia ou a exatidão?) se aproxima do
pretendido, e em outras, se afasta.


Armando Freitas Filho




Uma overdose de poesia

Em Novembro de 1981, o ensaísta José Guilherme Merquior concedeu uma polêmica entrevista para Marcos de Sá Corrêa, da Revista Veja, na qual dizia que, no Brasil, fala-se, escreve-se e pensa-se mal. Indagado acerca de quem escreve bem no país, o combativo crítico literário referiu-se a três escritores: o memorialista Pedro Nava e os poetas Armando Freitas Filho e Mauro Gama. Desde então, minha curiosidade em torno da poética de Armando foi crescente.

Nosso primeiro encontro aconteceu em 1996. Eu havia vindo de Natal para o Rio de Janeiro, a fim de colher material – teses, vídeos, resenhas, entrevistas – para a dissertação de mestrado que escrevia, na época, acerca do narrador pós-moderno nas micro-narrativas poéticas e na poesia de Ana C. Como curador da obra da poeta carioca, Armando tornou-se imprescindível. Frente à minha curiosidade, ele muniu-me de informações e cedeu textos da maior importância para a pesquisa que eu desenvolvia naquela época, e que resultou na escritura de Luvas na Marginália.

Numa outra visita, ganhei do poeta um exemplar do seu livro Cabeça de Homem (1991) com uma dedicatória marcante: Para Nonato ter uma overdose de minha poesia. Subi a serra de Teresópolis a fim de ler o texto, e lá pela página 57 (o livro possui 113) eu estava tomado pelo efeito daquela poética. O resultado está hoje registrado nas muitas páginas rabiscadas durante a leitura do Cabeça..., e numa tentativa de simulacro criado a partir do poema “Overnight” [1] que não vale a pena ser aqui transcrita. Leiamos, ao invés da minha simulação, uma mostra da forte dose poética do referido texto de Armando:


Atravesso de branco a noite inteira:
do A de Armando ao Z de Ezequiel
...
vestindo linho, panamá e lua
impecável
batendo e esticando
nos permanentes espelhos
fileiras de luz e carreiras
até o infinito.

24.Out.88


Do poeta eu conhecera antes o livro 3 X 4 (1985). Depois, li De Cor (1988), Números Anônimos (1994), Dois dias de verão e Duplo cego (1987) que resenhei para um jornal natalense em 1998. Durante o curso do doutorado, aproximei-me dos outros textos do poeta, incluindo-se aí o seu último lançamento: Fio Terra (2000). Quando pensei no livro Seis Propostas Para o Próximo Milênio, de Italo Calvino, como forma para esta tese, o nome de Armando como poeta representante da proposta da exatidão foi um dos primeiros a ser definidos.

Se durante algum tempo eu questionara o autor a ser lido em consonância com cada uma das propostas de Calvino, no caso da exatidão eu nunca tive dúvidas: a letra de Armando continha o que autor ítalo-cubano delineava como uma de suas linhas proponentes para um texto que se quer exato: o esforço das palavras para dar conta, com a maior precisão possível, do aspecto sensível das coisas [2]. Meu insight acerca dessa precisão, no texto de Armando, veio principalmente através de Duplo Cego, embora o exercício de exatidão em sua poética seja algo bastante evidente na maioria dos textos que a compõem.


A seguir, trataremos do exercício da exatidão que o poeta vem tecendo em sua obra, ao longo dos últimos 40 anos de produção literária, além do seu intertexto com autores mais jovens. Embora o poeta considere equivocada a minha sugestão da superfície como espaço de possibilidades para a inscrição, na contemporaneidade, do que se quer exato, vale a pena conferir suas propostas, seus argumentos. Dentre outros, o que ele sugere de nuança como pressuposto a partir do qual a exatidão se inscreve.

Nonato GurgelÉ bastante evidente o exercício da precisão, da busca de exatidão na grande maioria dos seus textos. Dentre os 12 títulos que comporão suas Obras Completas a serem lançadas em 2003 – quando você intera 40 anos de produção poética –, qual deles você destacaria como mais representativo da proposta de exatidão inscrita por Italo Calvino em Seis Propostas Para o Próximo Milênio? Quais autores o influenciaram no exercício dessa exatidão?

Armando Freitas Filho – Para começar, em nome da exatidão, a publicação, do ano que vem, cujo título é: Máquina de escreverpoesia reunida e revista, compreende 1 livro inédito, Numeral, nominal e 12 editados, de Palavra (1963) a Fio terra (2000). Não posso chamar de completa esta reunião porque muitos poemas escritos no correr desses quarenta anos, por uma e outra razão, não entraram nas compilações citadas. Penso até, futuramente, fazer um livro, sempre em aberto, digamos assim, que recolherá esses poemas rejeitados, na primeira hora. Poderá até se chamar Poesia avulsa ou Geral, quem sabe?

Na verdade, não posso destacar, sempre em nome da exatidão, nenhum título meu que representasse melhor esta pretensa capacidade. Creio que a resposta melhor está neste trecho do depoimento, que aparece no folheto que acompanha meu CD (2001) feito pelo Instituto Moreira Salles: (...) há sempre alguma coisa que falta ou sobra. O interstício e o excesso são a diferença imprecisa entre intenção e expressão. Procuro não contemporizar com a carência e a abundância, mas jamais consigo preencher ou desbastar de maneira correta. O que quero dizer ao transcrever essas linhas é que esta (vamos chamar assim), “angústia da exatidão” está no processo da minha escrita; que, às vezes, ela (a angústia ou a exatidão?) se aproxima do pretendido, e em outras, se afasta. Não está num livro: está nos livros. Mas pensando melhor: acho que a palavra “jamais” que aparece acima é inexata. Em muitos poemas alcanço até mais do que supunha, isto é: a exatidão (ou a angústia) é mais “exata”, até mesmo do que o pensamento almejou. Portanto, o que aparece como uma “condenação” perpétua, daquele que escreve, ao insatisfatório, é falsa. Não sou, sempre, vitimizado, pelo meu poema, seguramente.

Enumerar nomes dos autores que me influenciaram: Drummond, Cabral, Bandeira, Gullar, etc., me parece insuficiente. Prefiro entender este pendor para a exatidão, que você vê em mim, como uma tendência natural da minha personalidade obsessiva. Antes da minha literatura ela estava em minha vida. Mas não custa dizer que, ao contrário do esperado num suposto amante da exatidão, prefiro autores que privilegiam o claro/escuro àqueles que optam por uma clareza indubitável. Exemplo: Carlos Drummond e João Cabral. Estou com o primeiro, sempre estive, e não só pela qualidade, mas pela razão que a sua variação de luz é uma lição mais produtiva e desafiadora, para poetas, se não for para todos os leitores, pois enseja releituras que nunca “batem”, da mesma forma. CDA, “vive” o poema que é um problema, com “cem soluções à vista” ou “sem soluções à vista”. Cabral, tematiza, quer “matar” a charada, grosso modo. Isto não quer dizer que prescindo de Cabral ou congêneres. Por favor, nada de Fla x Flus, preciso de todos. Apenas, enunciei uma afinidade. A conclusão, enfim, pode ser esta: vai ver que minha aludida “exatidão” vem mais da observação da nuança que é a forma provisória e possível do que se quer exato. Nem é preciso dizer que esta disposição, por si só, não me faz, sequer, ser um poeta razoável.


NGUma das peculiaridades marcantes de sua produção é o intertexto – o diálogo entre autores e textos – que você mantém ao longo de toda a sua vida, esta Longa Vida (1982) – com as gerações mais jovens. Penso que nenhum poeta brasileiro, de sua geração, teceu com tamanha ênfase esse diálogo. De que se alimenta esse intertexto? O que o mantém vivo após 40 anos de poesia?

AFF – Foi com Longa Vida, onde reuni poemas feitos entre os anos de 1979 e 1981, que procurei dialogar, não só na literatura, mas também na vida, com os poetas mais moços, que estavam chegando ao livro. A principal “agente” dessa aproximação foi a Ana. Antes os diálogos eram, predominantemente intertextuais, literários, com os poetas que me antecederam. Aprendi com Ana Cristina, na prática, sem nenhuma doutrinação, que era mais rico transar direto, com seu competidor e cúmplice, do que com os mestres já encastelados. Era não só mais rico, era à vera, era mais... perigoso. Afinal, quem não arrisca, não petisca, e se existe muita vampiragem na vida e na arte, nada melhor do que sangue jovem e fresco, ou mais exatamente: diferente.

Passados 20 anos, continuo curioso, faminto, procurando do bom e do melhor, certo que o alimento magnífico é este. Mesmo sabendo que é ele, no fim das contas, que vai me matar ou substituir, pois estamos falando, metaforicamente, de uma transfusão. De repente, ainda cavalgando a metáfora, ou sendo cavalgado por ela, já não há uma gota de sangue seu, e, à la Rimbaud (mas sem “vidência”, pão, pão, queijo, queijo), você é um outro, que chegou para ficar.

NG – Retornarei aqui a uma instigante pergunta feita por seu tradutor Adolfo Montejo Navas, na entrevista que você concedeu, em 2000, para a Revista Cult nº 40.

Ao traçar uma espécie de linha evolutiva (ou seria sincrônica?) da poesia feita no Brasil, Adolfo diz que havia, nos anos 50 um certo medo da subjetividade, nos 60, da tradição, nos 70, da forma, nos 80, do próprio tempo. Para a resposta ao “medo” que “estaria na moda agora”, você reconhece haver saído do “âmbito poético”, alegando ser impossível não sair da página e não cair na pauta violenta que a cidade impõe....
.
Gostaria de propor-lhe um retorno à página, no intuito de prolongar a questão. Na entrevista concedida para o nº 01 de .doc - Caos em revista, 1999, você cita, para o poeta André Luís, um verso de Números Anônimos (1994): falo com coração e técnica. Isso remete ao prefácio de Ana C. para Longa Vida (1982), no qual a poeta diz haver, em seu texto, uma tensão entre a mesa burocrática e o impulso incendiário...

Retomando à primeira parte desta pergunta: o “medo” que estaria na “moda”, neste início de milênio, não seria justamente o “medo” do poeta de falar com o “coração”, de vivificar seu “impulso incendiário”, sua “fissura”? Ou haveria um outro medo?

AFF – Posso falar por mim, usando palavras de Maria Rita Kehl, na sua resenha, ”O desejo aflito”, sobre Cabeça de homem (1991): A poesia de Armando incita uma velocidade por dentro e por fora do corpo, correndo atrás de quê? (...) Claro, essa velocidade conhece a força do que vem vindo atrás dela, implacável. Escrever, como em Montaigne, é escrever contra a morte – ou não é nada. Meu medo, portanto, é este, e está sempre na moda. Antes e depois deste poema de longa vida: Mesmo que a vida dure/apenas uma hora/eu como/um pedaço de Plus Vita;/mesmo que dure/menos/eu bebo/até a última gota/meu copo de Longa vida;/mesmo que o coração/possa morrer/em 2000 – CCPL/ cuidado coração parando lentamente/ou no próximo segundo/dentro do peito/longa/continua a ser –sempre -/a vida/sob telhados/e espaçonaves de Eternit. Se o medo de sempre, existencial, coincide com o medo da hora, circunstancial, como é o caso, tanto pior: não há ilusão possível. Menos valia terá o coração, o impulso, a fissura do poeta, ou de quem quer que seja. Todos estarão alvejados.

NGHá em Fio Terra (2000) alguns versos que parecem inscrever uma poética que abdica da noção de profundidade, do mergulho abissal, em prol de uma inscrição da pele, da superfície, sem ser superficial: "Se alimenta até da nudez/ de qualquer superfície" (p. 08). "Ser na superfície, ao nível/ do mar. Não vôo nem mergulho" (p. 10). Estaria a exatidão relacionada ao plano da pele, da superfície?

AFF – A meu ver, a leitura e a ilação, são equivocadas. Fio terra se inicia e se encerra no “subterrâneo”. Os momentos de “superfície”, são minoritários, funcionam como respiradouros, a custo conseguidos. O próprio título indica essa predominância. A ordem natural das coisas, enfim, não autoriza que se privilegie a exceção, em vez da regra. Feita esta correção quanto ao “clima” que predomina no texto, mesmo que fosse o contrário, como a sua pergunta induz, não compreendo porque a “superfície” poderia ser o suporte, ter um valor constitutivo, estrutural, formador da exatidão, que você me atribui.

NGVocê continua vivendo a síndrome do último dia, como declarou para Camila Claro, em 2001, na Revista Submarino? O que caracteriza a vivência dessa síndrome? Ela aciona sua produção literária?

AFF - A resposta imediatamente anterior, meio que responde esta pergunta. Só posso dizer que a síndrome do último dia é inerente à condição humana, e que não aciona minha produção literária, muito pelo contrário, a abrevia. Não poderia ser diferente, pois sabemos que cada dia é menos um dia, que não se pode adiar esta constatação (pelo menos, quando se chega a uma certa idade), que não há saída viva da vida, que indo ou vindo, a direção é única:/parafuso, para frente, para o fim.



NOTAS

[1] FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de Homem. 1991. p. 57.
[2] CALVINO, Italo. Seis Propostas Para o Próximo Milênio. 2001. p. 88.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

“Penso com o olho”



















"A visibilidade é, para mim, uma afirmação da vida,
do viver, do mundo, da existência como absoluta presença."

Eucanaã Ferraz


Olhar como forma de a(r)mar

Primeiro foi o texto; depois, a pessoa. Através da antologia Esses Poetas (1998) – organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, tomei conhecimento da poesia de Eucanaã Ferraz. Lembro do prazer que me deu a leitura do sutilíssimo “Acontecido” [1] – poema do livro Martelo (1997), incluído na referida antologia, cujo início aqui transcrevo:

Como quem se banhasse
no mesmo rio
de águas repetidas,
outra vez era setembro
e o amor tão novo.
...

Em 1999 conheci, no Leblon, no relançamento da referida antologia, o poeta. Dele ganhei o próprio livro onde havia o referido poema de "águas repetidas". A leitura de Martelo acionou em mim um mergulho na superfície da página, do qual retornei com asas mais leves e músculos fortalecidos. Quando li depois o Livro Primeiro (1990) e suas linguagens estetizadas de forma clara, direta, sem hermetismo, embora distanciada do discurso naturalista, coloquial, vi confirmada – na orelha escrita por Roberto Corrêa dos Santos – a minha associação da poesia de Eucanaã à musicalidade poética de Manuel Bandeira; embora, como sugere Carlos Secchin, exista no autor de Desassombro a elaboração de um real menos ‘natural’ do que o de Bandeira [2].

Depois passei a encontrar o poeta pelos corredores da UFRJ, onde eu cursava as disciplinas do doutorado em Literatura Comparada, e ele ministrava aulas nos cursos de Literatura Brasileira. Passei também a acompanhá-lo em recitais de poesia e a assisti-lo em programas como os da TVE. Esses encontros demonstravam cada vez mais a sintonia existente entre a pessoa e o texto: parecia haver entre eles uma mesma leveza, embora ambos parecessem densos. Ou seja: o que de luminoso esplendia no poema de Eucanaã, era visível nos gestos do poeta, na forma dele habitar e estetizar o espaço de suas relações.

Crendo na poesia como arte que dialoga com nosso espanto diante das coisas, Eucanaã assume procurar, através de sua letra, o resgate da alegria em um mundo no qual a perfeição se encontra exilada [3]. Para esse resgate, o poeta ‘recorta’, no plano da enunciação, a própria sintaxe, exemplarmente elíptica [4], e lança ao seu redor um olhar através do qual constrói um conhecimento que possui no diálogo do corpo com a forma, a luz e a cor um dos seus procedimentos mais produtivos.

A seguir, o poeta fala, dentre outros, de um topos a partir do qual um sujeito poético vê sem que fique muito claro de onde se configura sua visão. Contra a melancolia da letra e num dos momentos mais instigantes da nossa entrevista, o autor discorre acerca dos procedimentos estéticos que diferenciam os textos de Martelo e Desassombro e celebra, de forma nietzscheana, a poderosa alegria que reside latente na concretude de todas as coisas.

Como em outras entrevistas publicadas no Brasil e em Portugal, Eucanaã assume mais uma vez seu apreço pelo exercício da reescrita. Destaca a pintura como arte com a qual travou, antes da letra, suas primeiras imagens e elenca cinco poetas como fundamentais para a sua criação: Sophia de Mello Breyber, Eugênio de Andrade, João Cabral, Manuel Bandeira e Drummond. Através dos três primeiros, Eucanaã diz haver sido orientado para um certo materialismo e uma espécie de realismo solar, mas consigna ser o autor mineiro de Alguma Poesia quem mais o ensinou o ofício da poesia. Lição que Eucanaã nos repassa, com alegria e luminosidade, nas próximas páginas.

Nonato Gurgel: Belo/ porque é isso/ belo. Desde o seu Livro Primeiro (1990), passando pelo Martelo (1997), é visível a influência de Manuel Bandeira na sua poesia: Também é o beco/ o que vejo. Na poética de Bandeira, o alumbramento cotidiano acontece muitas vezes em casa; mais especificamente no quarto – o espaço de inscrição da subjetividade. Qual o topos ao qual você recorre com mais freqüência para inscrever seu itinerário poético?

Eucanaã Ferraz: Não me recordo, agora, de um topos privilegiado. Talvez não haja. É provável que no Livro Primeiro a rua tenha sido um ponto forte de observação. Em Martelo, penso que a casa ganha muita importância, pois nele há um desejo de registro das coisas no espaço íntimo, no andamento cotidiano, doméstico. Na nossa cultura, no nosso imaginário, no nosso espírito a casa é o lugar central do acolhimento. Daí ela aparecer neste livro com muita freqüência, embora compareça também em Desassombro. Mas, por outro lado, a rua é importantíssima para os meus poemas. Há neles um espaço externo muito marcado. A arquitetura, os jardins, a cidade, os automóveis tudo isso forma uma massa de signos da visibilidade que são inerentes à experiência de vida de que tratam os versos. São, numa primeira instância, materialidades com as quais cruzo diariamente. E minha poesia não é feita senão disso. São “experiências”. Matérias da experiência. Mas talvez eu possa dizer que embora eu preze imensamente nos poemas a concretude das coisas e da relação com elas, na maior parte deles a observação é a de um sujeito que vê, sem que fique claro de onde ele vê. Ele está próximo da coisa, mas talvez não importe muito onde ele está. Ou melhor, o espaço talvez seja mais importante para situar os seres e as coisas do que para definir as especificidades da apreensão. Penso que meus poemas, de um modo geral, falam das coisas em seus espaços (que pode ser a casa ou a rua) mas o olho que as vê (que as sente e escreve) situa-se numa espécie de objetividade subjetiva que, simultaneamente, adere ao espaço das coisas mas este é, em última instância, sempre interno. O topos então, deixa de o ser, fundido com o sentimento e a criação de uma linguagem que materializa a experiência sem perder de vista a materialidade dos corpos em cena. Mas não estou muito certo disso tudo, pois nunca pensei sobre tal questão e eu teria de rever os livros e os poemas para falar melhor.

NG: Levando-se em consideração os procedimentos estéticos e literários, quais distinções você faria entre o "acontecido" Martelo (1997) e o luzidio Desassombro (2001)?

EF: Há, de fato, algumas diferenças. Grosso modo, posso dizer que os poemas de Martelo apresentam uma plasticidade mais estática, que, embora não tenha desaparecido no Desassombro, diminuiu, ou melhor, tornou-se mais dinâmica. Embora o poema de abertura deste livro (“Desassombro I”) seja uma natureza-morta, penso que nele há mais movimento, ou ainda, que as formas estão em movimento, enquanto no Martelo as coisas são vistas como conjuntos ou quadros relativamente imóveis, totalmente oferecidos à visão. Mas creio que talvez a maior diferença para mim esteja no fato de que no Martelo há uma absoluta confiança na forma, na arquitetura, na procura da perfeição (pouco importa alcançá-la). No livro seguinte, já surge a desconfiança e mesmo uma certa ironia para com tal procura. Toda a parte “A mesa de trabalho” trata disso, das desconfianças, dúvidas, questionamentos. Há mesmo um poema que é emblemático, pois trata de uma questão crucial: o fracasso. O primeiro verso diz “O tema é antigo”, ou seja, vai à tradição recuperar esta experiência inexorável na atividade de todo artista, escritor, poeta, que é fracassar. Só um tolo ou um ingênuo não vivencia a derrota de alguns (muitos, poucos…) de seus projetos e tentativas. A falha, o erro, a dúvida, o vazio são parte da criação e devem ser vividos integralmente. Acho esta mudança de um livro para o outro fundamental. Foi mesmo uma mudança de perspectiva.

Além disso, em termos estritamente construtivos, adotei em Desassombro a divisão estrófica (quase sempre dísticos ou tercetos) que ficou ausente de Martelo, onde os versos aparecem em blocos inteiriços. Outra “novidade” são os poemas "narrativos", que descrevem cenas, eventos, bom exemplo de construção plástica dinâmica, diferente das construções mais estáticas de Martelo.



NG: No belíssimo texto "Entre estilhaços e escombros" (Revista Relâmpago nº 07), Silviano Santiago o compara a um compositor de Bossa Nova que consegue extrair da negatividade do desencanto o encanto. Como operar a musical sutileza do desassombro num tempo no qual o exercício da ternura é quase uma impossibilidade?

EF: Vou lhe responder fazendo uso de uma outra pergunta que me fizeram para uma revista portuguesa. Observava-se, ali, que um dos temas predominantes na minha poesia era a busca da alegria. Afirmei que, embora menos presente em Desassombro que nos dois livros anteriores, havia, sim, este desejo, esta busca da alegria, que acredito ser possível não apenas na infância. Não nos imagino como seres exilados de um paraíso que estaria no passado, seja ele histórico, mítico ou pessoal. Digo num dos poemas de Martelo que a alegria é “uma prática”. Concebo-a, portanto, como algo a ser construído. A arte não tem de ser um acerto de contas com nossas misérias coletivas ou particulares. E se ela deseja sempre o impossível, por que a alegria, a felicidade e a saúde têm de estar fora de seu horizonte? Se recuarmos à música de Bach ou de Mozart, veremos esta alegria. Mesmo no século XX, temos a música de Satie, as pinturas de Matisse, de Miró, e mesmo parte significativa da obra de Picasso. A poesia de Jaques Prévet, de Manuel Bandeira e de Eugênio de Andrade também têm muito a nos ensinar neste sentido. A tristeza não faz a arte melhor, faz apenas a arte mais triste. Pode-se argumentar que a tristeza é inevitável. Está certo. Mas por que a alegria e outros estados felizes parecem indignos de figurar entre os sentimentos que produzem a poesia e as outras artes?

E, ainda, detesto, por exemplo, a mitificação do que muitos chamam de "o sujo" como marca necessária à verdadeira poesia, à poesia mais intensa. Digo, ainda, que a limpeza que muitos vêem nos meus versos é, sim, uma intensidade. E que demanda um envolvimento efetivo, afetivo, emocional, estético, ético para que a poesia não seja só o recolhimento do “sujo”, tão facilmente detectável nas coisas. A “sujeira” pode ser isso: uma crosta fácil. Acredito que a “limpeza” pode ser um trabalho intenso de audição das coisas, de abrigo da dignidade das coisas, da alma, de penetração para além do só reconhecimento da realidade como “sujeira”. Na verdade, há um disseminado desprezo pela realidade! A impregnação do real nos poemas Desassombro é veemente, absurdamente visível, explícita, escandalosamente fácil de ver e sentir. Mas tudo isso, não (por ser isso) pode ser, e é, motivo de desconfiança e dúvida. Daí a primeira parte do livro, “À mesa de trabalho”, e penso sobretudo, mais uma vez, naquele poema cujo tema é exatamente o fracasso.

NG: Desassombro foi lançado em Portugal antes do Brasil. Antes do lançamento, alguns textos apareceram na lusitana revista Relâmpago nº 07. Comparando-se os poemas publicados na revista e posteriormente lançados pela edições Quasi, percebe-se que os poemas possuíam belos títulos (Romance, Luzeiro, A leitora, Janeiro no Rio, Crônica...).

Por que você optou, no índice do livro, pelo uso do primeiro verso? Também em alguns textos como em "Eram penhas entre águas enormes" (um dos melhores poemas da nossa poesia contemporânea), percebe-se duas modificações em termos de recorte vocabular. Qual a importância de se reescrever o poema?

EF: Todos os poemas que integram o livro tinham, originalmente, títulos. Retirei-os porque queria chamar atenção para os títulos das partes que os reúnem. É comum que o poeta se esforce para criar alguma estrutura e o livro seja lido ou analisado como se fora destituído de qualquer estruturação e os poemas estivessem numa seqüência linear e aleatória. Daí, quis sublinhar a estrutura do livro retirando os títulos. Depois, me arrependi um pouco, porque acho que o leitor está mais acostumado com títulos e tem dificuldades para dizer que gosta (ou desgosta) deste ou daquele poema sem poder dizer os nomes deles. Mas a coisa está feita.

Quanto a reescrever, sou radical: prefiro reescrever a escrever. Claro que posso dizer que enquanto não dou o poema como pronto ele está sendo escrito. Portanto, não há reescrever, apenas escrever. Mas se pensarmos no binômio “escrever”/ “reescrever”, tenho de dizer que gosto imensamente da segunda tarefa. Gosto de ver o poema. Quando ele ainda está se descolando do limbo, é ainda imaterialidade, tem muito de invisibilidade. Gosto de rabiscar sobre o que está, de refazer, esticar, cortar, substituir, colar e assim por diante. Gosto da intervenção plástica, que para mim é sempre uma operação sensível. Não há dúvida de que é muito gratificante ver o poema apurar sua forma. Aprendo a escrever na reescrita. Deveria dizer, pois não deixa de ser verdade, que depois esqueço muita coisa e o que aprendi pouco servirá para outro poema. De fato, não há fórmulas. Mas não posso ser cabotino a ponto de dizer que o poeta sempre parte do zero. Isto é uma mentira. Um poeta sabe muito sobre sua escrita. Mas também é preciso que se diga que isto não é uma garantia e, pior ainda, pode ser uma desgraça. Enfim, antibandeirianamente falando, gosto mais do “exercício” do que do “alumbramento”.

NG: Se a poética de Armando Freitas Filho é recentemente perpassada por um Fio Terra alimentado da nudez de qualquer superfície, o seu Desassombro inicia por um fio de luz que à concretude dos objetos confere uma extrema nitidez. Isso parece outorgar à visibilidade uma dimensão bastante representativa da sua poética. Qual a importância da ação do olhar na construção de sua poética?

EF: Esta questão é complexa, plena de implicações e penso que sua real dimensão deve ser avaliada pela crítica que um dia vier, se vier, a se interessar pela poesia que escrevo. Mas posso dizer, por exemplo, que não me interesso pela abstração do pensamento. Não tenho aptidão, por exemplo, para a filosofia. Interessa-me a pintura, a arquitetura, a fotografia. Interesso-me por aquilo que posso ver. Tenho bem clara a noção de que esta é uma limitação enorme. E se algumas vezes procurei, sem muito sucesso, diminuir esta insuficiência, a certa altura imaginei que talvez devesse procurar, pelo contrário, extrair desta minha limitação alguma coisa positiva. E, de fato, acabei por tentar explorar as possibilidades da minha estreiteza, o que, no fim das contas, talvez tenha apenas tornado mais estreito o alcance reflexivo do que escrevo. Mas, de qualquer modo, adquiri consciência de que deveria converter em projeto estético a minha particular sensibilidade quando ia escrevendo os poemas de Martelo, que é em larga medida um livro marcado pela busca de um mundo apreendido como matéria, como corporeidade. Há, por exemplo, uma pequena série de poemas chamados “Figura”, “Figura com mulher”, “Figura II” e “Figura III” que dialogam diretamente com a pintura de Matisse, que é a referência plástica mais forte e decisiva da minha vida. Descobri a arte moderna com o “Grand nu couché/Nu rose”. Eu era um menino sem livros em casa. Aos poucos, fui comprando os romances de Alencar e dos outros românticos. Tinha como única referência poética o Eu de Augusto dos Anjos. A arte, para mim, era uma coisa do passado. Um belo dia, o menino deu de cara com a reprodução da tela de Matisse. Pronto! Foi um choque e um deslumbramento. Conheci a pintura moderna antes da literatura moderna. Eu desenhava bem e com muita desenvoltura. Depois cheguei a pintar. Gostava de fazer colagens. Podia passar, e passava, horas e horas recortando papéis, figuras, sem nenhuma necessidade de leitura, sem nenhum pensamento que não a avaliação do quanto uma forma e uma cor podiam ser belas. A beleza, que considero a mais alta qualidade que a arte pode alcançar, para mim está diretamente ligada à visibilidade. Para mim, a beleza, que é uma abstração total, é algo que reconhecemos sobretudo naquilo que vemos. Claro que há outras belezas, mas sinto as coisas visíveis como mais belas que as outras.

Mas, voltando à série das figuras, no “Figura com mulher” digo que a “odalisca” (referência direta a um dos motivos mais recorrentes da obra matissiana) “não sonha” e “vive a delícia – cor/ e perfume – de estar totalmente/ neste mundo.” A visibilidade é, para mim, uma afirmação da vida, do viver, do mundo, da existência como absoluta presença. Num outro poema de Martelo, ao falar de Deus, imagino que um navio talvez possa ser um pedaço de um pedaço/ de um pedaço do seu nariz (…) Só sei pensar as coisas mais abstratas e vagas como matéria, corpo, visibilidade. Penso com o olho. O olho é minha sensibilidade. E creio mesmo que a poesia que escrevo reflete isso. Tudo o que escrevo aspira ser como aquele grande nu de Matisse, absolutamente aqui, absolutamente agora, aberto à vida e ao olhar.


NG: Gostaria que o poeta tecesse um paralelo entre o seu mergulho nas poéticas águas lusitanas e sua viagem pela rigorosa arquitetura do verso cabralino.

EF: O contato inicial com as “águas lusitanas” deu-se com a leitura da poesia de Fernando Pessoa, de todo inevitável, já que no Brasil ele era e é obrigatório. Posteriormente, aconteceu-me a poesia de Jorge de Sena, que li com bastante atenção e entusiasmo. E, ainda, creio que por volta de 1985, eu e mais dois amigos adoecemos de Os passos em volta, de Herberto Helder. Digo adoecemos porque o livro se converteu numa fixação para os três, algo patológico! Quando não estávamos em casa a ler o livro, estávamos juntos, cada qual com o seu exemplar. Então, íamos para algum bar ou para a casa de um de nós e ficávamos madrugada adentro, maravilhados, lendo aqueles textos. Sabíamos de cor passagens enormes de “Estilo”, “Holanda” e “Coisas elétricas na Escócia”. À época eu já conhecia alguma coisa de Sophia e Eugénio, mas só depois suas poéticas ganhariam a dimensão de forças reveladoras da minha própria escrita.

Creio que o mecanismo da influência é mais ou menos esse: descobrimos algo que faz claro aquilo que desejamos secretamente, como uma vereda para chegarmos ao que nos tornamos. Sendo assim, realmente os dois nomes portugueses a citar são Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugênio de Andrade. Encontrei em ambos, sobretudo, a força que nasce da delicadeza e da luz. Já disse em outra oportunidade que a ternura de Eugênio é das coisas mais grandiosas que a poesia já produziu. Toda a sua palavra é de uma luminosidade que nunca cega, pois nasce de uma vivência erótica que afirma o corpo, que o festeja, ele e seus desejos, ele e suas sedes. A palavra é também um corpo na poesia de Eugênio, que convoca cada sílaba com o seu corpo inteiro. A atmosfera erótica eugeniana sempre me excitou, fisicamente mesmo, pouco importando sobre o que falasse. Até porque a poesia, de fato, não fala “sobre” coisas. As coisas é que são invitadas a virem para o poema como testemunhos da existência. A vida é real, sim, sabemos disso porque as coisas o dizem, e o dizem sobretudo, plenamente, nos poemas. Esta asserção das coisas no poema é absoluta, é maravilhosa, estonteante e patética. A poesia de Eugénio mostrou-me isso, assim como a de Sophia, cuja poética, toda a crítica já o disse, procura libertar-se de toda contingência de tempo e espaço, da descontinuidade dos nomes e dos corpos, a fim de fundar na escrita um tempo/lugar no qual tudo se reintegra e volta à unidade perdida.

Aparentemente, a escrita de João Cabral seria muito aposta à destes dois poetas. Sophia e João Cabral, porém, não apenas foram amigos, mas admiravam-se como escritores, homenagearam-se em poemas, trocaram livros e dedicatórias. Cabral comentava os poemas da amiga e O livro cigano mostra uma clara influência da escrita cabralina sobre Sophia de Mello Breyner. Também sei que Eugénio é um admirador da poesia do nosso pernambucano e seria possível traçar um quadro de convergências na poesia de ambos. Não pretendo ensaiar aqui um estudo aproximativo, e se sublinho alguma vizinhança fora do âmbito da minha poesia é apenas por uma espécie de vício crítico. Voltando ao círculo restrito que me inclui, penso que estes três poetas orientaram-me para um certo materialismo e para um realismo solar. Como poeta, eu não conseguiria, por temperamento, aproximar-me da poesia desejadamente incômoda de Cabral. Sua materialidade áspera e cortante, sem dúvida esplendorosa, definitivamente não me serviria. Estou mais próximo da delicadeza de Eugênio e Sophia. Mas, nos três, encontrei o rigor construtivo casado à emoção.

Também preciso consignar que, ao lado destas três referências fortes, o poeta que mais me ensinou o ofício da poesia foi Drummond. Quando aluno de graduação e de mestrado em Letras, li e estudei em várias oportunidades a sua poesia, orientado pela extraordinária professora e ensaísta Marlene de Castro Correia. A manipulação dos ritmos, das repetições, as alternâncias de tom, a variação de registros, as múltiplas vozes e outros recursos utilizados extensamente e magistralmente por Drummond eram vistos e pensados, pesados em relação com a reflexão que os poemas propunham. E penso não haver dúvidas de que a poesia drummondiana, neste sentido, é mais rica que a daqueles três poetas. Digo mais. Em língua portuguesa, só Pessoa ombreia com Drummond. Este aspecto do aprendizado formal foi fundamental para mim, que sou, por gosto, um poeta-trabalhador. Mas se pudesse eleger uma poesia como padrão, vislumbrada timidamente numa espécie de utopia íntima, esta seria a de Manuel Bandeira, pois penso que ela congrega todas as qualidades que me atraem neste ou naquele poeta, neste ou naquele pintor.

RN: Contribuindo para o desmoronamento da antiga crença de que construção teórica e criação poética não caminham de mãos dadas, você personifica o exemplo do poeta, profissão: professor. Não é algo muito comum no território acadêmico. Como você concilia sua atividade acadêmica com a produção ensaística e a criação poética?

EF: Não faço qualquer esforço para conciliar estas coisas, simplesmente porque isto não me parece necessário. Para mim, ao contrário, elas fazem parte de uma coisa só: a poesia. Dar aulas de literatura brasileira é um modo de estar próximo da poesia. Escrever ensaios sobre outros poetas tem esta mesma dimensão. Estou sempre lendo, escrevendo, falando sobre a poesia, poemas e poetas. Mas devo dizer que não gosto, absolutamente, da idéia de que hoje a poesia vem sendo feita por professores e/ou universitários. Penso que é melhor para a poesia estar livre. Não porque a academia possa lhe fazer mal. Sinto bem o contrário disso: a poesia e os poetas devem muito à Universidade, pois ali se formam críticos e leitores. Ela é um centro de recepção e divulgação extraordinário e insubstituível. Mas penso que a poesia deve ser lida e escrita por todos. Sua força está, repito, na liberdade, na amplidão. O verso não é uma especialidade, um artefato técnico sob controle de alguns estudiosos. O professor tem uma função, e seu papel não deve se superpor ao do criador.



NOTAS

[1] FERRAZ, Eucanaã. Martelo. Cit. 1997. p. 20.
[2] SECCHIN, Antonio C. Jornal do Brasil. 2002. p. 4.
[3] CANTINHO, Maria J. “Desassombro”. 2001.
[4] SECCHIN, Antonio C. Op. Cit. 2002. p. 4.

sábado, 17 de outubro de 2009

Poeminha Didático

Escrita em 1991, a primeira versão deste texto integrou a monografia "A Consciência Histórica do Poema". A referida monografia foi produzida no curso "A Modernidade da Poesia Brasileira", ministrado pelo crítico João Alexandre Barbosa numa Especialização em Literatura Brasileira na UFRN.


Quadrilha Moderna Para Dois Andrades


I

João lia Murilo
relido por Bandeira
que descobriu Cabral
que dedicou Pedra
do Sono a Carlos
.
Drummond louvou Bandeira
(“Desligamento do Poeta”)
que consagrou Cabral
(“Mafuá do Malungo”)
que na Quaderna releu Murilo

Mendes joãocabralizou-se
parceiro de Jorge de Lima
em Tempo e Eternidade
(pós Poemas com "Canção
do Exílio" e "Ângulos")

Carlos tinha uma pedra
Bandeira, um cacto
Murilo, a "Máquina de Sofrer"
Os Campos re-visaram
Sousândrade, Galáxias
.

II


O Eu escarrou
nas Belas Artes do país
bem antes das fezes
cabralinas de Gullar
sujar o poema
.
Cecília filmou em Ouro
a luz sem data
no país da arcádia
Jorge e Vinícius
inventaram Orfeu
.
Hilda tocou oboé
Teia teceu Orides
Adélia trouxe Bagagem
Baú...
e Arranjos... fizeram
Quintana e Manoel de Barros
.
Cabral criou o Museu
de Tudo e todos entraram
na história do poema:
de Gregório a Leminski
Alvim Waly Ana C

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Do barbante para a estante







Sobre Cordel






Texto escrito a partir da arguição da tese de doutorado Literatura de cordel: visão e revisão, de Aderaldo Luciano dos Santos, orientada pela professora Dra. Helena Parente Cunha, defendida na UFRJ em 30/09/09.



Literatura de cordel: visão e revisão abre com a seguinte epígrafe de Afrânio Coutinho: “A vida são as paixões.” Essa frase sintetiza a relação de Aderaldo Luciano com o Nordeste brasileiro e o seu antigo objeto de estudo: a literatura de cordel. A paixão pelo cordel abrange mais de 20 anos da sua vida, contemplando um período que engloba os cursos de graduação, mestrado e este doutorado.


Dividida em uma introdução, dois longos capítulos mais uma conclusão, a tese sinaliza o domínio formal do autor que é também poeta, autor do livro O Auto de Zé Limeira, lançado em 2008. O seu conhecimento da poesia brasileira, possibilita um profícuo intertexto com autores como Gregório de Mattos, Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, João Cabral, Marcus Accioly, Waly Salamão e Patativa do Assaré; todos eles pertencentes à pátria do cordel: o Nordeste - país de Antonio Conselheiro, "grande homem pelo avesso", um dos principais mitos e personagens do cordel.
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Em sintonia com esse berço cordelista, a tese atenta para os poetas que “desembocaram” na metrópole do Capibaribe, desde o final do século XIX e início do século XX, sendo a cidade do Recife lida como “ponto de confluência da modernidade” e espaço no qual “floresceu o cordel”. Essa matriz cultural urbana transforma-se na capital nordestina do século XIX - uma espécie de Paris sertaneja, se comparada com a forma como Walter Benjamin leu a patria de Baudelaire, Proust e surrealistas.


Clareza e a concisão são alguns dos atributos desta escrita. Nela não há hermetismos nem utilização de esquemas teóricos que dificultem a leitura. Essa escrita contém uma base oral muito próxima do grau de oralidade que requer a produção do próprio cordel. Essa opção pelo tom oral torna bastante sedutora a “narrativa” acadêmica. As vezes essa sedução parece meio inusitada ou até exagerada. Isso acontece quando deparamos com termos e expressões como, por exemplo, “tome conta” ou “alguns clarões”.

A Introdução é encerrada com uma menção ao poeta Patativa do Assaré, não sendo citado nenhum verso do autor. Ao adentrarmos a leitura, constatamos que ele é lido como poeta matuto, não como poeta do cordel. Indago: por que não mencionar, por exemplo, Leandro Gomes de Barros que é citado como marco (1902) e como poeta que formatou o cordel? Além disso, ele é eleito pela maioria dos pesquisadores como pioneiro e como um dos mais representativos poetas do cordel. Ou por que não citar Manoel Camilo dos Santos, relido por Orígenes Lessa, e citado num dos mais belos momentos da tese: “Se Camilo abria boca, eu fechava os olhos, ele ficava, eu saía pelo mundo” (p. 78). Apesar desse desvio, é imperativo salientar que, nos dois capítulos, a poesia de cordel se faz presente numa proporção condizente com a presença dos discursos críticos e teóricos.


Leitura Crítica


A pesquisa de Aderaldo Luciano aciona uma espécie de recepção crítica do cordel. Na “arqueologia” que empreende em torno desta forma literária, o autor elabora uma intensa crítica à maioria dos estudiosos e pesquisadores da historiografia do cordel. Essa crítica tem como base os aspectos folclóricos e culturais eleitos nestes estudos e pesquisas, em detrimento dos elementos literários que esta tese busca priorizar.


O texto inteiro é permeado por um tom crítico. Esse tom é, às vezes, adverso em relação não apenas a esses estudiosos e pesquisadores, mas também a alguns poetas cordelistas. Nem mesmo alguns teóricos ficam de fora desse discurso de tonalidade crítica. Excetuando-se Câmara Cascudo, Victor Aguiar e Angélica Soares, é raro o autor com o qual há total concordância (mesmo o mestre Cascudo recebe, no final da tese, uma contestação quando destaca a marca narrativa no cordel). Como cordelista e pesquisador, recebe elogios um autor contemporâneo chamado Marco Haurélio. Ele seria um dos responsáveis pela modernização desta forma literária, cujas estórias surgiram impressas em livrinhos expostos no barbante e geralmente vendidos em feiras. Neste milênio, esses livrinhos começam a ser transpostos do barbante para a estante - espaço destinado para a maioria dos estudos elaborados em torno do cordel.

Estudiosos e pesquisadores como Teófilo Braga, Silvio Romero, Irani Medeiros (ele copiou Veríssimo?) e, dentre outros, Gonçalo Ferreira da Silva (poeta e Presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel) são alguns dos nomes que geram discordância nesta tese. Com Sebastião Nunes Batista, por exemplo, a crítica parece-me bastante pertinente. Ele não consegue distinguir as diferenças entre as formas do folheto e do folhetim. Conclui de forma equivocada a sua leitura em torno do cordel. Aderaldo recorre a uma citação de José de Alencar, em relação a publicação de O Guarani, para desfazer o equívoco produzido pelo referido estudioso.


Também vejo pertinência na crítica ao escritor Veríssimo de Melo, um estudioso cuja bibliografia é imprescindível para a compreensão da cultura brasileira, e na qual se destacam as Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo (1991) - livro para o qual ele escreveu introdução e notas. Mas, nesta pesquisa, Veríssimo demonstra limitação ao ler o cordel. Como a maioria dos estudiosos, ele elege os núcleos temáticos e os aspectos folclóricos como características. Elas são rebatidas de forma convincente; inclusive com citação de datas despercebidas pelo estudioso potiguar. Também a questão da supremacia do gênero narrativo defendida pelo autor, não determina, segundo a tese, a essencialidade do cordel (Importante registrar que, em pleno século XXI, Aderaldo jamais duvida de conceitos como essência, originalidade, autoria e, dentre outros, origem e fundamento).


Na pesquisa que empreende em torno da história do cordel, o autor deixa claro que a sua origem está na sintaxe entre elementos rurais e urbanos. Ao contrário da grande maioria dos estudiosos, ele apresenta radicalidade ao assegurar não haver “qualquer semelhança” entre o nosso cordel e o cordel produzido na Península Ibérica. Diz ele: “não tem qualquer ligação, exceto no nome”. Essa polêmica perpassa todo o primeiro capítulo, juntamente com a negativa da vinculação do cordel aos cantadores e repentistas. A tese traça diferenças entre o cordel e o repente. Estuda também, dentre outras formas populares, os diferentes tipos de pelejas.


A Linguagem como "personagem" principal


Seguindo a trilha aberta por M Cavalcanti Proença que lê os aspectos literários do cordel, esta leitura elege a linguagem como um dos principais “personagens” desta literatura. Acredito que o mérito desta tese é exatamente este: trazer para o campo da linguagem e do discurso a especificidade do cordel. Estabelecer, como diz o autor, um “caráter literário da literatura de cordel”. Esta é a grande sacada: atentar para o cordel como produção da linguagem. Linguagem como instrumento que estabelece o nexo entre o poeta, sua percepção e as formas de criar e refletir o mundo. Linguagem que ratifica a tradição literária e cultural de quem cria.


Nestes sentido, a linguagem, a forma e a exploração dos recursos fônicos são os elementos que diferenciam o poema matuto (calcado principalmente na fala coloquial) do cordel (mais voltado para procedimentos da escrita como, por exemplo, o acróstico). No cordel, a fusão de elementos descritos e narrativos com procedimentos poéticos possibilita a construção de um texto híbrido onde mais de um gênero se faz presente.


Na utilização da linguagem do cordel, a forma da sextilha – e não a quadra - é lida como característica histórica desta forma literárial. E mais: a sextilha escrita sem a deixa; já que esta constitui-se num procedimento típico dos cantadores em suas sextilhas orais.

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Cordel atesta a musicalidade da linguagem popular. Resgata as fontes da oralidade, uma das características da escritura clássica. Isso sem falar no recurso clássico que aparece em vários cordéis: a invocação às musas, aos deuses, aos seres inspiradores. Ainda no âmbito dessas relações entre os universos do cordel e do clássico, lembramos o narrador estudado por Walter Benjamin no seu cultuado ensaio "O Narrador". Este narrador benjaminiano é calcado na oralidade e na memória. Ele resgata e repassa experiências relativas à comunidade. Como acontece com vários poetas do cordel, este narrador repassa também uma lição, uma moral, uma norma de vida, um conhecimento utilitário. Com base nestas questões da oralidade, da memória, do repasse da experiência e do recurso da invocação, seria possível afirmar que a literatura de cordel se utiliza mais, em pleno século XX, de procedimentos relacionados à estética clássica do que ao estilo moderno que vigorou nesse século.


Literatura de cordel: visão e revisão sugere ser o Nordeste uma região carente da produção de linguagem, e um espaço para o qual o cordel possibilita a elaboração de uma identidade lingüística. Essa elaboração discursiva leva em conta elementos políticos, estéticos, cotidianos, míticos e imaginários, em sintonia com um contexto histórico que, há séculos, carece de discurso. Neste contexto sócio-literário a linguagem é, portanto, um produto de primeiríssima necessidade.

sábado, 5 de setembro de 2009

WOYZECK – O BRASILEIRO, um épico?













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Para Miriam Juvino, produtora da peça



“Quando tem pilha o coração fica sangrando sem parar”


Essa frase acima refere-se, na peça Woyzeck – O Brasileiro, a uma singela imagem do Coração de Jesus que surge nas mãos de um personagem. Retirada do seu contexto, a fala parece sintetizar o texto, o elenco, a produção, e toda a arquitetura sonora (trilha original de Otto) e cênica que engendra a dramaturgia de Fernando Bonassi e a direção de Cibele Forjaz.

Na referida montagem de 2001, no Rio de Janeiro, o discurso da “pilha” é dito por Woyzeck – um homem ciumento que se alimenta de ervilhas, delírios e reflexões. Ele é uma espécie de Sísifo de olaria que escapa da fome indo para o exército. O seu discurso é proferido para Andres – personagem alimentado pelo canto e pela dança, que faz da ação de empilhar tijolos um roteiro concreto para a sua existência.

A “pilha” é aqui lida como metáfora do afeto que se encerra em nosso peito. “Pilha” que dá ritmo ao homem - bicho que se move num cenário áspero de poeira e barro. Sem ela – a pilha – a respiração não alcança; a circulação interdita a palavra.
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Sem “pilha” o olho nubla. O sangue estanca. O gesto encolhe, não cria sentimentos. O corpo pára de dizer; cala o seu discurso secreto e secular quando falta a “pilha”. Sem ela, a pátria é puta. Ninguém te convida ao salão. A vida passa a ser “uma fera que hiberna precariamente” (Ana C.). O coração é lento quando ela está ausente. Tijolo marrom de barro, imóvel e pesado, é o coração sem "pilha" num canto do cenário.

Woyzeck – O Brasileiro é, pois, uma peça sobre a movência e o mistério que é a “pilha” no corpo falante – o pulso, o pé, o olho, tudo o que respira e move. “Pilha” que é necessária ao homem para ritmar o tempo que o consome neste cenário de barro batido, cujo pó o receberá de volta. O texto alemão do século XIX, escrito por Büchner, antecipa alguns procedimentos das vanguardas do século XX, transformando-se numa aula sobre o ritmo e a movência. Na didática dessa aula, o elenco transita pelo cenário lecionando a “matemática do gesto”, a geometria da perda e a perene possibilidade da forma. Várias formas que contornam o caos. Seja a forma circular do poço – onde indagamos o infinito questionário da existência; seja a vertical forma dos planos no cenário – onde a virilidade exerce a sua potência afirmativa e criadora.
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Do arquivo de formas sociais, estéticas e existenciais que compõem a peça, destaca-se o ainda “olhar esfomeado” da mulher. Ela expressa a forma vibrante do universo feminino, seja ao banhar-se no poço, seja ao amassar o barro. De várias maneiras, Woyzeck ajuda-nos a celebrar a provisória cota diária de compreensão e afeto que nos cabe, e a compreender as nossas sedes e fomes contemporâneas.

Olaria humana em ruínas

Munido da “pilha” do personagem alemão, o ator Matheus Nachtergaele – entre dolorido e esperançoso - escreve no programa da peça um texto que parece ritmado pelo pulsar do coração do elenco que sangra “sem parar”. A partir da visão do espetáculo e da leitura de seu texto, é possível a inscrição das demandas de um corpo cuja mobilidade sa(n)gra o que de reflexivo e imaginário pode captar.
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Um corpo atento aos sons e gestos, às palavras e luzes que nascem da escuridão do barro que por vezes chega a salpicar algumas vestes na platéia. Nesta peça ouve-se o eco das dores daqueles que, ao perderem tudo, não conseguiram retornar do fundo do poço. Não conseguiram fabricar uma outra estação. Uma outra primavera. Uma peça da qual saímos para lavar a roupa suja do barro de onde viemos, da poeira que nos alimenta nesta olaria humana em ruínas.

Segundo Matheus, Woyzeck – O Brasileiro é “uma pedreira... para fazer da dor serviço”. Para a execução desse feito, o elenco contata o abismo da pele e a superfície da alma, com tudo de perda, queda, busca e nudez que isso mobiliza: “o desejo de um conhecimento quase insuportável às nossas potencialidades” (Fernando Bonassi). Nas palavras do ator Nanego Lira, a encenação justifica-se “...pelo tesão físico de expor a nossa carne e o nosso sangue no palco”.

Nessa exposição abissal, o corpo amolado e aceso inscreve – na olaria gestual – o quanto de delongas e demoras reside no ritmo que articula um gesto, produz uma palavra. No texto inacabado de 1837, a palavra produzida por Büchner aos 23 anos dá conta desse ritmo através da fala de algumas de suas personagens.
Ouçamos o Capitão:

“— Calma, Woyzeck, calma; uma coisa depois da outra! ...Convém planificar, Woyzeck!”.

“— Está bem, Woyzeck. Você é um homem bom, um homem bom. Mas pensa demais, isso dói. Você está sempre tão apressado”.

“— Senhor Doutor, não corra assim! Não reme assim no ar, com sua bengala! Assim o senhor está se apressando para a morte”.

“— Ei, Woyzeck – Que pressa de passar pela gente! Venha cá, Woyzeck? Correndo como uma navalha aberta pelo mundo! Seria capaz de cortar a gente”.

Enquanto reflexão acerca do deslocamento, do ritmo e da movência, WOYZECK é um vasto interrogatório das relações entre o espaço, o corpo e a palavra: em qual chão precisamos remexer, revirar, para do barro esculpir o gesto – áspero ou leve – de cada dia? De quantos músculos necessitamos para arremessar os tijolos de nossa inacabada construção? Qual palavra brotará da relação entre a “intenção” e o “gesto”?

Todo o elenco de WOYZECK parece vivificar “o esplendor da queda” e “a violência do abismo” (Iracema Macedo). A queda que é filha da pressa; a violência, da falta de ritmo. No cenário, tem-se às vezes a impressão de que tijolos voadores possam acertar algum espectador. São esses tijolos arremessados por este pequeno Sísifo que dialoga com o ativo personagem Andres na recepção do tijolo – signo da forma e do peso que permeiam as suas próprias existências. Mas aqui a leitura desse signo é bastante ambígua, porque ao tijolo é dada a possibilidade de voar por entre as palavras e os seres humanos.

Sob as bênçãos de Apolo e Dioniso

Se pensarmos no signo que é WOYZECK e sua concepção estética, podemos acionar o Nordeste brasileiro como significante (a forma) e a Alemanha como significado (o conteúdo). Do Nordeste como significante, o elenco recolhe sons, formas e materiais; a significação alemã pode estar relacionada às idéias de “derrocada do idealismo romântico e o desenvolvimento da concepção materialista do mundo” (Cibele Forjaz – diretora).

Nestes dois extremos podemos situar a peça: entre a moderna arquitetura dos versos nordestinos de autores como João Cabral de Mello Neto e Joaquim Cardoso, e a pós-moderna filosofia alemã de autores como Nietzsche. Da concepção poética moderna, WOYZECK – O brasileiro herda o rigor e a exatidão, o culto à forma e a secura temática da pedra, do barro, do pó que esculpe a linguagem cabralina.
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Contra o perene otimismo da lógica e a favor da capacidade de suportar a contradição, WOYZECK tem de nietzcheano uma certa ternura para o que nos causa estranheza, e o desejo de estetizar continuamente a existência. Com enorme gozo estético e social, a peça sugere também a dionisíaca crença nietzchiana num Deus e num homem que saibam dançar, que saibam voar. Afinal, é com pés de pomba que se governa o mundo, conforme a lição do filósofo.

Além de Büchner e Nietzsche, um terceiro autor alemão pode ser relacionado à peça: o escritor Walter Benjamin. Para ele, épico é o teatro gestual – aquele teatro que possui o gesto como material e questiona o caráter de diversão atribuído à arte. Neste sentido, podemos pensar que ao assistir a WOYZECK – O Brasileiro, estamos diante de um épico. Não um épico na sua inteireza enquanto gênero que narra a grandiosidade dos fatos históricos e faz apologia ao herói; mas um épico de ruptura, fragmentado, pós-moderno. A peça exibe uma epicidade que, ao estetizar as condições históricas e existenciais de suas personagens, dá conta da nossa subjetividade aflita e contemporânea.

Ao eleger como signos o espaço da movência, o ritmo da palavra e a precisão do gesto, a peça parece traduzir a olaria em ruínas onde amassamos o barro da nossa alteridade, onde construímos os tijolos de tudo o que move, salta, busca saída. Ao lecionar a didática do arremesso, da movência, do salto, Büchner e Matheus lavam nossa alma. Sim, Matheus, seu evangelho nos salvou. Aprendemos que até para morrer é preciso ritmo. Ao sairmos do teatro parece que continuamos a ouvi-lo: vão dançar, vão trabalhar, vão suar, vão foder, vão viver...

Sob a bênção de Dioniso esquecemos, por instantes, a assepsia limitada do shopping. Deletamos o olhar cartesiano e previsível. Rasuramos o pragmatismo dos garotos saudáveis... Melados de saliva e suor, desejamos cair no poço. Almejamos chafurdar na lama. Voltar ao barro. Tudo isso sob a bênção de Apolo, é claro. Porque dele nasce a forma, o ritmo, o gesto.
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BIBLIOGRAFIA
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BENJAMIN, Walter. "Que é o teatro épico? Um estudo sobre Brecht" in Magia e Técnica, Arte e Política. 5a ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.
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PROGRAMA DA PEÇA. Woyzeck - O Brasileiro. Textos de Matheus Nachtegaele et ali. Rio de Janeiro, 2001.

terça-feira, 30 de junho de 2009

A chama do ensaio e a simetria da representação






Sobre Duplo Cego


Uma versão desta resenha foi publicada na Tribuna do Norte, Natal, 03/02/1998


“aspira... à arte: misto de estilhaço frio e efervescência”

Armando F. Filho


De belos título e projeto gráfico, Duplo Cego (Ed. Nova Fronteira, 1997) é o 16º livro de poemas do carioca Armando Freitas Filho. Detentor de um Prêmio Jabuti, traduzido para vários idiomas e países, referendado por críticos como Silviano Santiago e Flora Sussekind e curador da obra da poeta Ana Cristina Cesar, Armando atravessou as 4 últimas décadas sem engajar-se em “legendas indeléveis”. Essa liberdade estética e política é responsável pela projeção de uma poética que, sintonizada com as nuanças artísticas e os procedimentos culturais e contemporâneos, destaca-se por um primoroso trabalho com a sintaxe textual em contraposição ao “esteticismo da palavra”.

Duplo Cego traduz, através dessa exatidão sintática (e "com o rigor de tigres"), dois núcleos temáticos acionadas pelo poeta: o exercício do ensaio e as formas da representação. Por isso, os 43 textos do livro dividem-se em duas partes - “Do ensaio” e “Da representação”. Num tempo no qual os efeitos e os procedimentos da representação são questionados e re-dimensionados, e do ensaio cobra-se a imersão de uma força imaginária, através do diálogo entre informações teóricas e formais com experiências subjetivas e reflexões pessoais, nada mais pertinente que estetizar essa problemática crítica num contexto poético. O próprio autor escruta as questões em exercício. Segundo Armando, “...o ensaio, hoje, anda incorporando mais livremente a especulação, a incerteza, a contingência de quem o faz, sem os rigores metodológicos e os fatalismos teóricos de antes” (4ª capa de “Escritos da Inglaterra”, Ana C., Ed. Brasiliense, 1988).

Crença na crítica e na criação balizam este Duplo Cego. Na primeira parte do livro, “Do ensaio”, Armando medra a inscrição de sua poética, através do introdutório “Sobre Pedra”. Nesse poema resplende uma escrita “sem horizonte à mão”, que desdenha “legendas” e demonstra saber de cor a “cara fechada” “da cantaria”. Em seguida, o belíssimo “Escritório” traz os livros como tema. Inscreve os “livros lidos, relidos” e os “cerrados, cegos de mim que vão fundo/ mesmo ficando parados - à espera/ e que apenas as traças atravessam”. Nada romântico, “Limite” sugere um sujeito que ensaia sua experiência estética calcada no rigor poético e na consciência analítica do seu fazer literário: “...não posso escrever/ na linha da arrebentação”.

“Do ensaio” prossegue estetizando a "crítica" poética proposta por Armando. Através de títulos, epígrafes e referências in-diretas, o poeta mantém cerrado intertexto com autores e artistas de diferentes contextos. Ao nomeá-los, ele recorta, de certa forma, um "cânone" particular composto por estilos e estéticas díspares onde se inscrevem Clarice Lispector, Duchamp, J. D. Salinger, Drummond, Murilo Mendes, Ângela Melim, Ana C. e João Cabral. Esses nomes surgem em textos como “Rubin”, “Cesar”, “Lispector” e “Para João, com amor e sordidez”, onde figurações de afeto e chumbo dimensionam o espaço imaginário.


Reciclando o recorte poético
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Na segunda parte - “Da representação” - são poetizados temas e leituras concernentes ao cotidiano, aos afetos e avios. Aqui a existência é re-lida sob o signo da memória, do testemunho, do desejo. Poemas como “Casa fechada”, “Dor” e “Sem nome” ratificam essa escrita na qual o interlocutor é, muitas vezes, personagem e ponto de partida para o desdobramento do tema. São textos sintonizados com os efeitos da simulação, os sentimentos da falta, as formas inacabadas.

Essa sintonia entre efeitos, sentimentos e formas caracteriza um espaço-tempo no qual vivemos “sem o segredo de ferrugem/ das fechaduras/ nem o drama de chaves perdidas/ e dos indistintos dias desertos de escrita/ que passaram sem saber”. Mas sabe-se, no poema “Zerando” (4ª capa), do poeta “tão fixo e travado/ como no começo de tudo”, abrindo “veias” e “gavetas”. Como leitores deste autor que vem publicando a 37 anos, desejamos que suas veias e gavetas continuem abertas e que, página a página, corpo a corpo, revelem-nos a poesia contemporânea de cada dia. Essa abertura ajuda-nos a imaginar respostas e perguntas para o in-questionável questionário “do destino - quem? Qual?” (“Em tempo real”).

Reciclando o recorte vocabular da poesia como faz, por exemplo, Augusto dos Anjos no seu belo livro Eu (1902) ao utilizar-se de vocábulos da esfera biomédica, Armando introduz no cenário estético e cultural deste final do século o seu Duplo cego (1997). Transportado do contexto da medicina para o universo artístico, Duplo Cego deixa de ser o teste médico no qual nem o pesquisador sabe quem está recebendo o produto ou o placebo, nem o paciente sabe quem está administrando. Essa relação médico-produto-paciente sugere, de certa forma, a relação autor-obra-leitor e, ao transformar-se em título deste volume, o teste aciona uma das mais caras atribuições do bom poeta em todas as épocas: a necessidade de reciclar o idioma, de dar novo entusiasmo à linguagem. No belo teste de formas e linguagens propostas por Armando, o leitor percebe que em terra de cego quem lê o duplo vê.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Lirismo sem transcendência








Entrevista publicada em 2004 no Fórum Virtual O que é literatura – PACC/UFRJ - http://www.pacc.ufrj.br/literatura/arquivo/index.php
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O poeta, ensaísta e professor de Estudos da Tradução Paulo Henriques Britto (PUC – Rio) é reconhecido como exímio tradutor. Nas três últimas décadas, ele traduziu autores de diversos contextos e das mais diferentes estéticas, como: John Donne, Emily Dickinson, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Susan Sontag, John Updike, Frank O'Hara, Philip Roth, Thomas Pynchon, Ian McEwan, Henry James, Jack Kerouac, Faulkner e Byron, dentre outros. Ao todo, são mais de 80 livros traduzidos.
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Nascido no Rio de Janeiro, em 1951, ele é autor de quatro livros de poesia: Liturgia da matéria (1982), Mínima lírica (1989), Trovar Claro (1997) e Macau (2003). Com esse último, lançado pela Companhia das Letras, o autor recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2004 e o Prêmio Alceu Amoroso Lima - Poesia 2004.
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A seguir, o poeta, contista e tradutor lança o seu olhar sobre a poesia contemporânea. Autor que considera a leitura de Dickinson, Drummond e Pessoa, dentre outros, como parte importante do seu "processo de formação intelectual, emocional e moral", Paulo Henriques destaca, dentre outros temas, os procedimentos estéticos de sua poética. Além disso, fala sobre Paraísos Artificiais, o seu primeiro livro de contos, lançado em 2004.
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NG Dentre os autores acima traduzidos, com quais deles é possível estabelecer relações estéticas com a poesia que você produz e por quê?
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PHB: Desses poetas, o que mais marcou meu trabalho foi provavelmente Stevens, porque o descobri por volta dos vinte e poucos anos, quando ainda estava desenvolvendo um estilo próprio. Dele o que mais guardei foi o apreço pelo apuro formal, mas além disso tenho em comum com Stevens uma visão do mundo que recusa qualquer transcendência. Traduzi Byron e Bishop quando já tinha definido minhas opções estéticas, mas sem dúvida os anos que passei trabalhando com as obras deles tiveram o efeito de reforçar minha predileção pela associação entre forma fixa e linguagem coloquial.
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NG Você vê utilidade no fazer poético, ou compartilha da leitura leminskiana da poesia como inutensílio?
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PHB: A meu ver, a arte não tem nenhum objetivo que não o de proporcionar prazer estético. Mas é claro que ela pode fazer muito mais do que isso, inclusive ajudar o fruidor a desenvolver uma visão menos estreita da existência e do mundo.
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NG Embora em contextos e formas diferentes, você utiliza, como Byron, "a língua coloquial de sua classe e de sua época". Na sua poesia, a linguagem cotidiana e seus ritmos dão o tom, como ouvimos explicitamente em textos como "De vulgari eloquentia", de Macau (ler abaixo). De onde advém essa altíssima taxa de oralidade que perpassa toda a sua poética?
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PHB: São várias fontes, mas as principais são os meus mestres modernistas - Pessoa, Bandeira, Mario, Drummond, Cabral, bem como os poetas modernos de língua inglesa; e a grande música popular dos anos 60- Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros, além de grandes letristas do rock, como Bob Dylan e Jim Morrison.
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NG – Além do tom reflexivo, sua poética ostenta uma forma metalingüística que muito elucida seu processo de criação. Gostaria que você comentasse acerca desse e de outros procedimentos estéticos de sua poética.
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PHB: Creio que o gosto pela metalinguagem é comum à maioria dos poetas brasileiros (e não só os brasileiros) do século XX. É ao mesmo tempo sinal de consciência profissional - pois poesia é, acima de tudo, linguagem, e nada mais lógico do que ela voltar-se sobre a linguagem - e sintoma de crise - pois na medida em que a poesia se volta cada mais sobre si mesma, mais estreito se torna seu público. Embora pratique a poesia metalingüística, cultivo também a tradicional temática do lirismo, ainda que de modo contido e autoconsciente. Tento evitar os excessos do cerebralismo cool que caracteriza parte da produção contemporânea (que parodio em alguns poemas do meu último livro) e também os excessos de um neo-romantismo que começa a se afirmar nas últimas décadas.
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NG Quais poetas e prosadores você destaca na literatura brasileira contemporânea?
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PHB: Temos muitos nomes excelentes no Brasil hoje. Para só citar alguns, e me restringindo aos com menos de sessenta anos, entre os poetas eu destacaria Carlito Azevedo, Cláudia Roquette-Pinto, Nelson Ascher, Eucanaã Ferraz, Antonio Cicero, Alexei Bueno e Heitor Ferraz Mello. Na prosa, temos, entre muitos outros escritores de qualidade, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Cristóvão Tezza, Antonio Carlos Vianna e André Sant’Anna.
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NG Gostaria que você falasse sobre Paraísos Artificiais – o seu primeiro livro de contos.
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PHB: Comecei a trabalhar num livro de contos em 1972, quando estudava cinema na Califórnia. Cheguei a aprontar cerca de trinta, mas já no Brasil comecei a retrabalhá-los, e no final só sobraram um ou dois do tempo dos originais, mais uns cinco que fiquei escrevendo e reescrevendo nos anos 70. Nos anos 90, publiquei alguns deles em revistas literárias e escrevi mais um, e a Companhia das Letras se interessou em lançá-los em livro. No final de 2003 aprontei rapidamente uma novela, "Os sonetos negros", e dei o livro por completo, mais de trinta anos depois de iniciá-lo. Como se pode imaginar, o livro não tem uma unidade de estilo ou de visão; os primeiros contos foram escritos por um rapaz de vinte e poucos anos, e a novela por um homem com mais de cinqüenta anos. Nos primeiros são visíveis as presenças de Beckett e Kafka, os escritores que eu mais lia na época; "Coisa de família", que levou cerca de dez anos para ficar pronto, é do tempo em que eu estava descobrindo Gombrowicz; e “Os sonetos negros” foi sugerido pela leitura e tradução dos contos de Henry James e também pelo romance Possessão de A. S. Byatt, que traduzi em 1992.

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DE VULGARI ELOQUENTIA

A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.
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Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.
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Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída – falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",
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todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.


domingo, 28 de junho de 2009

Nada de mergulho: sobre Macau




Uma versão desta resenha foi publicada em 2004 no Fórum Virtual O que é literatura – PACC/UFRJ
http://www.pacc.ufrj.br/literatura/arquivo/index.php


A escuridão começa pelas bordas
e vai seguindo até chegar ao centro,

lá onde uma semente aguarda a hora,
tranqüilamente, sem medo do escuro:
pois é da natureza das sementes

se afastar da luz, mergulhar no úmido,
sepultar-se por toda uma estação.
No entanto, neste caso a escuridão
é de outra espécie, mais seca e mais rasa,

uma que avança devagar e sempre,
alheia a qualquer propósito ou causa,
Até só restar pedra sobre pedra.

Mas a semente espera. Ela é insistente,
e acerta mesmo sem saber que erra.


I

Lançado em 2003 pela Cia das Letras, o livro Macau sugere, já na superfície luminosa de sua capa, e na portabilidade do seu projeto gráfico, o que aguarda o senhor leitor hipócrita e cúmplice do poeta e tradutor Paulo Henriques Brito:

Nada de mergulhos. É na superfície
que o real, minúsculo plâncton, se trai.


Esses dois versos - de um dos DEZ SONETÓIDES MANCOS, o VI mais exatamente - estetizam aquilo que a orelha de Macau entrega: o poeta alimenta-se da matéria nossa de cada dia. Sua escrita brota bem ali, do "cais raso da subjetividade". Também vem da orelha do livro a audição de uma outra senha desta poética que é um elogio à oralidade ao conectar "rigor formal e desordem cotidiana".

Essas conexões entre o "raso" - a superfície, a pele - e o que a estrutura corporal capta e fabrica, em termos de forma estética, é visível na grande maioria dos poemas. Isso pode ser aferido, por exemplo, no cabralino poema V da FISIOLOGIA DA COMPOSIÇÃO:


É preciso que haja uma estrutura,
uma coisa sólida, consistente,
artificial, capaz de ficar
sozinha em pé (não necessariamente
exatamente na vertical), dura

e ao mesmo tempo mais leve que o ar,
senão não sai do chão. E a graça toda
da coisa, é claro, é ela poder voar,
feito um balão de gás, e sem que exploda
...


O leitor não se engane: nesta poética onde a "coisa" voa, não há sentimento alado nem coração algum explode. Macau é território da contenção e da brevidade de quem traduziu, dentre outros poetas, Emily Dickinson, Wallace Stevens e Elizabeth Bishop. Espaço da semente contida que aguarda de forma irônica, humorada, na umidade abaixo da pedra. Da leitura de DE VULGARI ELOQUENTIA, por exemplo, emerge a imagem dos ombros drummondianos que foram estetizados como suportes existenciais do século XX, no tempo em que a vida era uma ordem. Na poética de Paulo Henriques Britto os suportes são outros. Em seu texto, nenhum "José" "está sem assunto". Isso acontece porque são as palavras - e não os ombros - que suportam o mundo; este mesmo mundo que o poeta outorga ao desejante leitor, num dos DEZ SONETÓIDES MANCOS, indagando se ele, o senhor leitor, vai "comer" "aqui e agora" ou prefere "pra viagem". O "sonetóide" sugere um possível diálogo com o poema "Cantiga de Enganar", do livro Claro Enigma, onde o poeta de Itabira treina leveza, aprende a rir e diz: "O mundo não vale o mundo, meu bem".

Humor e ironia dialogam nessa seqüência inicial de textos que inclui BAGATELA PARA A MÃO ESQUERDA e as TRÊS TERCIANAS (principalmente a primeira). A leitura desses poemas sugere ser essa metalinguagem mais produtiva e bem humorada, caso o leitor possua repertório para reler alguns dos procedimentos estéticos caros às poéticas da modernidade que atravessaram o século XX.


II


Em "Biodiversidade", primeiro texto deste volume, uma "fala esquisita" sugere uma voz "do outro lado da linha formigando de estática". Inscrita num invisível espaço úmido tal qual a semente em seu mergulho ao afastar-se da luz, essa voz possibilita ao leitor um intertexto com outras vozes díspares. Vozes que se inscrevem a partir de diferentes figurações espaciais. Essa inscrição não rasura a superfície ("só o raso é cool"), mas o mergulho expressivo, aqui neste "império" sonoro onde "a dor é kitsch" e o que se sente, atropelado. Nestes textos, o espaço faz aflorar gestos feito sementes que avançam em diferentes ritmos, alheias a quaisquer propósitos ou covas. Pactos, lábios e epifanias podem resgatar, entre o amor e o asco, a porção romântica que ronda o leitor de poesia contemporânea:

Porque nenhum descobridor na história

(e alguém tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.

Desse cais, o poeta traduz a afetiva lição do humor e da curva; remete ao mundo sua carta historiando múltiplos espaços e diferentes concepções temporárias. Diferentemente do poeta aristotélico, sua história não "narra" o futuro de pretérito, mas os vários tempos de que se fazem sua poesia. Principalmente o presente. E mesmo que o seu verbo encerre algumas seqüências de mini núcleos temáticos repletos de não e nada e nunca, ele se anuncia prenhe de sementes e suportes. Porque esse "descobridor" que não se desprende de seu "cais", navega as águas da alteridade "à mercê do latejar de um músculo". E esse latejar traduz uma certa oralidade cotidiana na qual o leitor deste início de milênio se reconhece muito bem. E vivo.