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domingo, 24 de abril de 2011

Overdose do real

De olho nos autores que começaram a publicar a partir da década de 90 do século XX, no Brasil, percebe-se que com essa chamada geração realista surge uma outra forma de profissionalização literária. A partir do surgimento dessa geração 90 e tendo por base alguns textos lançados pela geração 00, podemos dizer que um outro perfil do autor literário passa a ser redefinido nestas primeiras décadas do século XXI.

Para a construção desse perfil autoral, a publicidade pode armar estratégias de inscrição cultural e de consolidação literária, diferindo de tudo o que foi visto no universo das Letras. Antenado com a subjetividade maquínica e virtual, esse novo perfil autoral possui muito pouco do autor que tinha na leitura e na escrita de textos verbais as bases do seu universo literário. Para alguns desses autores contemporâneos, literatura é outra coisa. Seus procedimentos estéticos e culturais são outros. Para eles, a literatura transformou-se em algo bastante diferente do que era, por exemplo, a arte literária para um escritor do século XIX – o mais literário de todos os séculos, como diz Eduardo Lourenço.

O perfil literário contemporâneo surge em sintonia com os gráficos da mídia e do mercado, mas de ouvido aberto ao discurso da crítica. Esse novo autor busca atender demandas múltiplas como as patrocinadas pelas feiras de livros e eventos culturais como as bienais, por exemplo. Daí, as agendas trepidantes e os infindos roteiros – reais e virtuais – da maioria desses autores. Eles elegem as letras urbanas e as ruas modernas como “personagens” de seus textos.

Esses textos são lidos, em sua maioria, por um viés realista। Esse realismo não tem nada a ver com aquele velho Realismo cheio de certezas e das noções de totalidade que aprendemos com Lukács. Não se trata de um realismo que acredita no poder supremo da representação. Mas nele faz falta, muitas vezes, uma imersão inventiva no universo imaginário onde os sonhos da razão não produzam apenas referente, mas principalmente letras.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Letras da memória lusa



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Texto escrito com base na arguição da dissertação de mestrado "Fazes-me falta, de Inês Pedrosa: uma alegoria contemporânea da saudade”, de Ângela Rodrigues, defendida na UFMG, em 2007, sob orientação da Professora Dra. Constancia Duarte.


Perda e Morte como personagens


Com trânsito intenso pela literatura e pelo jornalismo, a escritora portuguesa Inês Pedrosa produz uma escrita bastante sintonizada com o contexto e os procedimentos estéticos contemporâneos. Prova dessa sintonia está no romance Fazes-me falta (2002). Nele a autora aciona, sem hierarquias, um permanente intertexto entre o cânone literário (Tolstoi, Proust, Virgilio Ferreira...) e os produtos midiáticos (Woody Allen, Stones, Chico Buarque...).

A produção bibliográfica da autora lusa ostenta o seu trânsito por várias formas estéticas: a crônica, a entrevista, o conto, o romance e até uma fotobiografia de José Cardoso Pires. A crônica, por exemplo, é lida pela autora como um “exercício de intervenção social, como forma de poder cívico”. Segundo ela, “dentro de todo cronista há um optimista furioso – a própria zanga serve de testemunha a esse contrato de encantamento com o mundo” (p. 35).

Assinalo o trânsito por essa diversidade de formas e esse olhar consciente de Inês, a fim de contrapor essa visibilidade contemporânea à visão dessas mesmas formas, tendo como parâmetro o olhar de uma autora moderna como, por exemplo, Clarice Lispector. Ao contrário de Inês, Clarice transforma em drama a produção da sua escrita que descobre o mundo (referência à escrita da “ponta dos dedos” nas crônicas de A Descoberta do Mundo). Mas, há entre Clarice e a protagonista de Fazes-me falta mais sintonia do que supõe nossa infinita fome de vida. Em sua última entrevista, a autora que elegeu a morte como personagem predileto do seu último livro – A Hora da Estrela - diz para o repórter da TV: “Agora eu morri. Vamos ver se eu renasço. Por enquanto eu estou morta. Estou falando do meu túmulo”

Do "túmulo" fala uma das vozes do romance. Em seu texto, Ângela cita uma entrevista de Inês na qual a autora ressalta a perda e a morte como “personagens” a partir dos quais a escritura do seu romance é produzida. Ouçamos o dueto de Ângela e Inês: “Fazes-me falta (2002), segundo a escritora, foi escrito a partir da experiência da perda: escrevi-o ao som da música dos meus mortos, ensaiando uma aproximação mais radical à ciência da poesia, a poesia da política e a dança da filosofia.”

Ratificando essa noção de ruptura de gêneros, a relação com a poesia é sugerida, no romance, através de um certo tom roseano que, de quando em vez, é audível na escrita de Inês. Isso pode ser aferido na seleção do recorte vocabular e na invenção de palavras que revitalizam e entusiasmam o idioma, como “noante” (cf. p. 44: “Entrevistada...”). Essa relação tonal com o texto roseano é também sugerida no apreço pelo pormenor, pelas coisas miúdas: “Lixar o tempo é questão de acerto nos pormenores” – “o meu olhar sem órbitas move-se por ampliações máximas de pormenores mínimos” (p. 16).

É importante ressaltar que os dois primeiros capítulos do romance são abertos com poemas de Pedro Tamen e Luis Filipe Castro Mendes. Isso assinala a relação que se tece, no romance, entre o rigor da construção poética e a escritura desta narrativa (lembrar que Inês organizou uma antologia de poemas portugueses tendo o amor como tema – “como se faz que perdure?”; e Angela conclui a sua dissertação lendo no amor sua “inclinação” “atemporal, transcendendo as diferenças que não encontram respostas e geram buscas constantes”).

No texto de Ângela, a noção de rigor está presente principalmente na Parte I – “Inês Pedrosa e a Literatura Portuguesa Contemporânea”. Aqui são delimitadas as quatro fases do romance português, tendo por base a leitura feita por Miguel Real. Inês Pedrosa é inserida na Geração de 90 que se caracteriza, dentre outros, pela valorização das instituições e do mercado, e ganha filiação na corrente do Realismo Urbano Total.

É a partir do final do século XX que Portugal começa a repensar o seu projeto identitário. Justamente por isso, eu implico um pouco com essa noção de totalidade (própria das grandes narrativas da modernidade) sugerida por Miguel Real. Num tempo no qual a noção de fragmentação predomina nos espaços das artes e culturas, principalmente na prosa romanesca, como esta própria dissertação e o seu objeto de estudo propõem, a cognominação de Realismo Urbano Total não me parece em sintonia com o recorte vocabular da crítica contemporânea.



Memória e Linguagem



Desde Homero, o culto à memória é uma forma de acesso direto ao conhecimento, à noção da verdade. Seguindo essa trilha memorialística da busca da verdade, Ângela constrói de forma criativa as suas “figurações da memória”. Na parte III, intitulada “O Percurso da Memória”, a autora demonstra uma voz própria ao afirmar:

“Assim sendo, a narrativa de Fazes-me falta, como um jogo de espelhos, através de sua inversão, reporta-se ao sentido encontrado nos textos construídos pela memória de cada narrador, refletindo em suas diferenças e oposições espaciais a imagem de um relacionamento que se erigiu pela falta e que a morte “descobre” para depois redimensionar”

Duas vozes perpassam a narrativa dialógica de Inês. A voz feminina inicia e propõe os roteiros temáticos à voz masculina, mais velha. Em sintonia com os procedimentos estéticos sugeridos por Fazes-me falta, Ângela trabalha com as questões do tempo, da memória e da saudade. Seu texto possibilita um diálogo entre a narrativa individual e a memória coletiva da história portuguesa. Este é um dos melhores roteiros da sua pesquisa, quando a autora ensaia acerca de como as figurações do real se condensam na memória para depois se transformar em texto escrito.

Relevante seria, caso haja uma extensão desta pesquisa, que esse diálogo entre as figurações do real, do tempo e da memória levasse em conta a dimensão do imaginário luso. Seria da maior importância uma espécie de leitura do “inconsciente cultural” (Eduardo Lourenço) dos portugueses, do seu passado artístico. A produção de uma leitura atentando para as idades do ouro das letras portuguesas, seus mitos e os pressupostos ideológicos que as patrocinaram, ajudaria a entender algumas das imagens e dos sons que são produzidos no imaginário bélico deste início de milênio onde a morte encena um dos principais personagens (Pensar nas imagens e nos sons que formatam o discurso narrativo de Inês e sua geração).

Ou seja: já que Inês é situada dentro do panorama da historiografia literária portuguesa, seria importante reler o imaginário (seus vocábulos, mitos, signos mais recorrentes) que ela herda dessa historiografia literária e da qual se apropria para a construção do seu texto, assim como faz grande parte dos escritores da chamada pós-modernidade. (cf. A Nau de Ícaro, onde Eduardo Lourenço lê a saudade como “melancolia solar”).

A leitura dessa dissertação sugere como a narrativa da morte, num contraponto com a narração da vida, estetiza a possibilidade de tudo verbalizar. Há nos discursos dos dois narradores uma transformação tonal durante a narrativa. Os tons são múltiplos e oscilam do áspero ao religioso. Oscilam também do tom afetivo ao automatismo herdado dos hábitos patrocinados pelos universos da política e da mídia (pensar na crítica ao automatismo gerado pelos sistemas sociais, e como a linguagem, os discursos dos personagens sinalizam suas mutações existenciais e suas opções políticas: “A política decompôs-te o tom de voz...”).

Algumas falas dos narradores de Fazes-me Falta anunciam essas relações entre identidade e linguagem, como atestam as seguintes vozes:

- “A tua voz mudou, a tua alegria arrefeceu...” (p. 80)

- “A tua voz descentrou-se... A voz comercial com que defendias agora as Grandes Causas do Universo era-me insuportável...” ( p. 75)

- “...deitastes sempre muito tarde, por causa do travo das palavras cansadas...” p. 111:

No universo da estética e principalmente das letras, a sonoridade dos vocábulos e a leitura do significante denotam um valor de expressividade. Na teoria de Bakhtin, por exemplo, a pessoa que fala no romance é identificada principalmente pela imagem de sua linguagem. Em Borges, o caráter não é mediado apenas pelos atos do sujeito, mas pode ser expresso pelo acento fônico, pelo tom da palavra, a entonação próprios do falante... Em torno dessas questões linguísticas, é importante lembrar as lições de Jakobson e o valor expressivo dos fonemas, as funções da linguagem; as aulas de Barthes e o significante como categoria suntuosa relacionada ao prazer do texto.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Ficção Contemporânea

Texto publicado no Diário de Natal, Natal-RN, 2004



















clique no flyer para ler ampliado

terça-feira, 14 de julho de 2009

De ouvido atento ao redor










Texto publicado na Revista Suíte Rio, ano 3 . n 12 - Rio de Janeiro, abr/maio, 2006


Pop, cult, eclética, pós-moderna. Esses são alguns dos adjetivos com os quais a cantora carioca Marisa Monte foi saudada pela crítica, em 1989, ao lançar um vinil intitulado com o próprio nome, depois de divulgar as canções numa intensa relação com o palco e o público.

Nesse primeiro trabalho, ela inovou ao optar pela noção de multiplicidade. Mostrou-se à vontade ao entoar gêneros e ritmos díspares – samba, pop, jazz, xote, rock –, e já sinalizava a diva que viria a ser na década seguinte, quando inscreveu-se como intérprete da poesia urbana e contemporânea de Arnaldo Antunes (“Comida”, “Flores”, “Alta Noite”...), e depois como compositora no CD Mais.

Esse talento para compor ficou cada vez mais audível nas cinco das treze canções que compõem Verde anil amarelo cor de rosa e carvão. Considerado um clássico de nossa música contemporânea, este CD de 1994 tem participações de Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Laurie Anderson e Época de Ouro, dentre outros, e nele Marisa canta “Ao meu redor” – uma bela canção na qual Nando Reis, ainda como membro dos Titãs, inscrevia sua marca diferencial. Entoados, portanto, desde o século passado, os sons e as imagens que estão ao redor da cantora continuam a dar o tom da sua trilha. Prova disso são estes dois CDs solos, que vêm à luz após a maternidade de Marisa, e cujos títulos sugerem um diálogo entre os seus roteiros estéticos e existenciais: Universo ao meu redor (sambas) e Infinito particular (pop).


As formas demoram


Ao contrário da maioria dos artistas que demarcam os prazos midiáticos de seus lançamentos, Marisa demora na produção de sua obra. Ela sabe que a construção das formas artísticas e culturais requer tempo e maturação. Enquanto geram seus ritmos, suas imagens e rimas, as formas demoram na construção do diálogo entre o espaço e o tempo. Isso demonstram as 27 canções que agora vêm a público após Crônicas, memórias e declarações de amor, de 2000. Entre essas duas safras-solo, Marisa produziu trabalhos de antigos sambistas; produziu também o CD que gravou em parceria com os tribalistas em 2002, quando mergulhou no nosso imaginário afetivo. Nesse mergulho, fez o país inteiro resgatar a sua porção lúdica e entoar o fato de ter como melhor amigo o próprio ser amoroso ("Velha Infância").

Parir fez bem à cantora. Sua voz está cada vez mais leve. Seus timbres e nuanças imprimem uma cadência particular às canções; e ela arrasa na viagem que faz, por exemplo, no “Bonde do Dom” e em “Satisfeito” (belíssimos sambas em parceria com os tribalistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown). Essa cadência é também audível na interpretação de sambas como “Três Letrinhas” (Moraes e Galvão, de Acabou Chorare, 1971) e “Vai saber?” Nessa última canção, Adriana Calcanhoto celebra sua fé na dúvida e na linguagem contraditória dos amantes, e cria um universo musical onde ressoa a precisão marítima de Caymmi e a suavidade vocal de João Gilberto. A canção é um marco.

Para construir a sua cadência marcante, Marisa capta e recria a “atmosfera do samba”, através do diálogo com a Velha Guarda de escolas cariocas. Para reciclar o pop, a cantora opta pela competência melódica (“Pra ser sincero” e “o rio”), audível nos arranjos de Philip Glass, Eumir Deodato e João Donato, e nas composições de seus parceiros mais recorrentes: Arnaldo e Brown.

Fã de estúdios, gerânios e eletrodomésticos, a cantora alia a seus projetos estéticos o domínio técnico e vocal, o ecletismo de um repertório que não pára de se reinventar e uma excelente recepção pública. Coisas de quem ouve como reza o barulho do rio, e de quem assume ir aonde a leva sua voz. Materializada em sons e sins, ela (en)canta um universo particular onde “a alma aproveita pra ser a matéria e viver”.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

...e o lugar da letra?














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Texto publicado nO Jornal de Hoje, Natal, 30-31/10/1999


Em texto recentemente publicado em Folhas de Relva (Revista da Escola Doméstica de Natal - Ano 2 nº 02, setembro / 1999), a profª. Ilza Matias escreve sobre “a literatura como máquina de visão”. Neste instigante ensaio, ela indaga se a literatura terá um papel como um dos fluxos criativos da afirmação humana, em meio à paisagem eletrônica que se desenha nos centros urbanos. Noutras palavras: haverá espaço para a arte literária em meio a tantas tecnologias e as excessivas cópias e re-produções da mídia?

Não se trata de uma pergunta simples. Numa época na qual alguns departamentos literários (principalmente das universidades americanas) perdem cada vez mais espaço para a abrangência dos estudos culturais, respaldados pela extensão da mídia e dos seus domínios, faz-se necessário indagar o “papel” da literatura e investigar o seu lugar em meio às tecnologias intelectuais. Para responder a essa delicada questão, a autora construiu um texto no qual ecoa a contemporaneidade de vozes como Ítalo Calvino, Félix Guattari e Pierre Lévy, dentre outros. Junto a esse time de autores, Ilza ressalta os modos como a tecnologia e os seus aparatos audiovisuais, ao produzirem novas subjetividades, modificam os paradigmas culturais.


A técnica entra em cena



Desde o final do século passado e do início deste século que chega ao seu final, as artes - e principalmente aquelas construídas a partir do signo verbal, como a literatura - ganharam novo impacto a partir do desenvolvimento tecnológico. A criação de objetos e máquinas como a lâmpada elétrica, o automóvel, o cinematógrafo, o vídeo, a TV e a máquina de escrever transformaram radicalmente o cenário e os costumes da vida urbana. Nas cidades, as ações cotidianas passaram a ser mais imediatas, o que de certa forma interferiu na produção e na recepção da arte. Some-se a isso o aparecimento da imprensa diária, contribuindo para a mudança de hábitos e formando um novo tipo de leitor com um outro ritmo de leitura. A literatura passaria a ter uma forma mais apressada de recepção; e gêneros como o romance, por exemplo, sofreria influência do jornal.

Difícil não perceber que a entrada de tanta tecnologia em cena contribuiu para a mudança de percepção do sujeito. E a lição de Walter Benjamin nos ensina que quando muda essa percepção, transformam-se os modos de existência da coletividade e os seus meios de produzir arte e cultura. Cria-se, com essa transformação perceptiva, uma re-leitura do contexto (o poeta Paulo Leminski já demonstrou que não apenas as formas, mas até os sentimentos são históricos; e portanto, mutantes). A possibilidade de poder-se observar imagens que se locomovem na tela, a transformação do ritmo temporal gerado pelos meios de locomoção, a leitura do jornal e a criação de uma escrita automática, por exemplo, são alguns dos motivos que contribuíram para que o texto literário ganhasse um novo ritmo ainda no início desse século. Agora esse ritmo torna-se mais radical, a partir do advento da informática, dos roteiros da computação e sua escrita virtual.

A inscrição da literatura como técnica evidencia, pois, a tão propalada perda da aura - outra sacada genial do Walter Benjamin, pelos meados dos anos 30, quando a gente sequer tinha produzido a Formação da Literatura Brasileira, escrita por Antônio Cândido na década de 50. Mas sem drama: naquela década a gente já podia ler os textos de Mário e Oswald de Andrade e os romances de Graciliano Ramos, por exemplo. E também nesse período predominava por aqui gêneros menos “nobres” como a crônica, o conto, as palestras, os discursos e os artigos para a imprensa que, de certa forma, tiveram neste século um papel decisivo para o desenvolvimento da técnica literária e para a circulação dos textos no Brasil.

A história demonstra que a literatura atravessou o século numa interação constante com as artes e os produtos culturais, como a fotografia, o cinema, a TV, o vídeo, a pintura, o jornal... Essa interação provocou novas mudanças na produção e na recepção do código literário. Hoje, as formas de ler e narrar são mediadas pela tecnologia, o que tem a ver com esta nova subjetividade urbana produzida no cenário tecnológico ou na "paisagem eletrônica" (Ilza Matias).



A letra mutante



O ritmo da leitura, a construção da personagem, os múltiplos focos narrativos, os deslocamentos temporais do poema e da narrativa - tudo isso está associado às transformações técnicas e culturais do século XX. Todos esses procedimentos estéticos remetem ao eco mecânico que Mário de Andrade escutava, ao datilografar na sua primeira máquina de escrever, e à linguagem “telegráfica” dos textos de Oswald de Andrade, cuja produção estética dá notícia das mídias e do aparato tecnológico surgidos nas primeiras décadas deste século.

Agora, de olho no início do próximo milênio, percebemos as “tecnologias da inteligência” (Lévy) interferindo na literatura e na produção das demais artes e dos produtos culturais. Percebemos também que a literatura prossegue no seu intuito de construir produtos vinculados ao imaginário e ao que o humano possui de demasiado humano: sua desejante marca diferencial. Essa marca constitui-se num diferencial da maior importância, embora seja ela um traço que a mídia e o seu aparato tecnológico, na maioria das vezes, insistem em homogeneizar, ou até apagar. A letra ativa, pois, o elemento ficcional e a necessidade de imaginar a nossa diferença, inscrevendo a multiplicidade de discursos e possibilitando que a narração da história seja viável a partir de vários pontos de vista.

Sintonizada com esse diferencial humano e de olho na potencialidade do olhar, a literatura adentra o próximo século como “hipertexto”, e sintonizada com as mutações contextuais e estéticas. E para os leitores deveras preocupados, as palavras finais do texto de Ilza Matias projetam um bom espaço para a arte literária:

...a literatura escapa de ser estática por configurar-se num campo de virtualidade que lhe permite expressar o devir histórico, a cultura e o sujeito hiperestético.

Como máquina de visão, a literatura destina-se, portanto, a ver. Destina-se a fazer do próprio leitor uma máquina de visibilidade. E ao fazer com que o senhor leitor veja, a literatura ocupa o lugar onde a cegueira ensaia a sua eterna repetição em meio a tantos clones e tantas cópias.


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Para este mundo acordar







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Texto de apresentação do Anuário da Cultura, Natal- RN, 1998


Os conceitos, as funções e a utilidade (?) da arte e da cultura são questionados em cada contexto, por vozes que dialogam com múltiplos discursos de tempos e espaços diferentes. Para as vozes de filiação platônica, por exemplo, as artes e culturas denunciam e postulam as questões e os conceitos concernentes à sociedade e aos contextos sócio-políticos nos quais são produzidos. Para outras vozes antenadas com os preceitos da ruptura artística e da forma estética, a arte e a cultura desautomatizam e têm como objetivo a recriação do ser humano. Segundo outras vozes mais contemporâneas, a arte recicla e recria o arquivo de formas e linguagens artísticas e culturais, herdadas da tradição, objetivando a inscrição das vozes excluídas e periféricas. As concepções são múltiplas, contraditórias e, claro, políticas. Mas, uma coisa é inquestionável: num universo cujos signos mais freqüentes são balizados pela reprodução /repetição de imagens e conceitos patrocinados pela tecnologia de ponta, a produção de objetos artísticos e culturais torna-se um perene imperativo da condição humana e sua marca diferencial.

Como objeto que buscar reafirmar essa marca diferencial, este Anuário da Cultura objetiva reunir num mesmo espaço os produtores culturais e os feitores de arte no Rio Grande do Norte, registrando estéticas múltiplas e tendências díspares. Mapear e difundir a produção potiguar é o objetivo deste Anuário. Sua publicação sugere que num tempo globalizado no qual cada tribo expõe a sua marca diferencial, nada mais pertinente que a reunião, a postura do banquete ou o desejo de integração. De olho no século XX, não foi isso o que fizeram os primeiros modernistas paulistas, a tropicália baiana, a marginália literária carioca e os musicais mangueboys pernambucanos? As lições dessas e de outras tribos nos ensinam postulados básicos, como a necessidade de verificar o suporte diferencial do outro, esculpir cara própria. Essa demarcação identitária sugere a importância de mapear o terreiro para a batida dos atabaques, entoar os afoxés, letrar a raiz, instalar antenas. “Poty or not Poty” - Medeiros, Oswald, Shakespeare.

Como na canção lupiscínica, este Anuário da Cultura conclama “maestros, músicos, cantores, gentes de todas as cores”, e aciona os devoradores /demolidores /consumidores da arte e dos produtos culturais para fazer este mundo acordar. “Quem tiver apito, apite”. Quem puder fazer arte, arda, anuncie, inscreva-se. Conjugue o verbo cascudear. Como diz o mestre potiguar, autor da História dos nossos gestos, “Indispensável é a alegria do trabalho, esperança inabalável no Êxito, colaboração unânime e fervorosa em toda a colméia."


sábado, 27 de junho de 2009

Na esquina de todos os tons




Publicado no jornal O Poti, Natal, 29/10/2000



Neste final de século, a leitura do espaço e do sentido da visão ganharam dimensões inusitadas. A arte e a pele contemporâneas parecem muito mais atentas ao que visivelmente as circundam do que às abstrações temporárias e metafísicas. Por isso tem sido cada vez mais constante a leitura de uma noção do espaço sobreposta ao movimento do tempo. Parece claro: ser da ordem do visível é parâmetro para lermos o milênio que se anuncia.

De olho nesse tipo de visão centrada na pele e na dimensão espacial, João Bosco lança Na esquina (Sony Music) - seu 16º álbum. O projeto dá continuidade à parceria iniciada em As Mil e Uma Aldeias (1998) com o poeta Francisco Bosco. Pai e filho encontram-se Na esquina para sonorizar e celebrar o potencial lírico-imagético que transita por este temido e desejado espaço urbano.

Na esquina cartografam-se cores e gestos, peles e músculos; são audíveis os fragmentados tons urbanos que sonorizam a trilha do transeunte. Haja “palavra que batalha”; salve tanto ritmo: cariri cambará tororó mambulê... Com quantas esquinas e gêneros musicais desenha-se um país? Samba, rumba, bolero, reagge, balada... Esta é a esquina de todos os tons. Aqui alguns ritmos podem dobrar uma esquina estética, anunciando mutações musicais. Assim sendo, um samba transforma-se em frevo (no belíssimo “Dia de Festa”); uma melodia “cheirando a Cuba” anuncia algo “Beirando a rumba”. Dessas mutações surge o primeiro reagge do repertório de João - “Mama ‘Palavra” - canção que ritma ideologicamente o signo sócio-cultural que todo verbo sugere (e faz imaginar Elis Regina entoando um dos gêneros ausentes no seu repertório). Além desses ritmos, destaca-se um antigo “True Love” porteriano que se transforma, nesta esquina sonora, numa bosquiana balada que diz sua “razão de ser” na novela das sete: “Amar, amar”.

a nobreza do lamento ancestral

Na esquina resgata do imaginário latino o bolero, a balada e sua lírica tradição na história da MPB. “De coração na mão”, João simula “Passos de amador” - canção inserida na linha da “nobreza romântica” que possui em Dolores Duran um de seus ícones. Em seguida resgata-se, nesta esquina do milênio, o terreiro de Clementina de Jesus. Esse resgate musical acontece através de um batuque no qual o canto de João empresta à palavra de Francisco o lamento ancestral, estetizando a perda: “Eu enfeitei tua palavra/ E fui correndo te esperar/Lá na esquina da promessa/ com quem manda acreditar”.


Na esteira de sambas históricos como “Incompatibilidade de Gênios “ e “Nação”, a canção “Doce sereia” celebra a exuberante alegria desses antigos clássicos, com um refrão cuja oralidade dá notícias de nossa cordial tradição tropical: “Vamos juntos nadar/ Na maré cheia/ Quem não morre no mar/ Morre na areia”. Ressalte-se ainda o pujante arranjo de Jaques Morelenbaum e o “auxílio luxuoso” de Marçal (cuíca, caixa, agogô e surdo), presentes em outras faixas.

Uma releitura de nossa cordialidade pode ser ouvida nesta esquina - território musical onde acordes os mais variados convivem de forma democrática com outros ritmos e os belos solfejos de João. Nesse espaço de ruptura musical deparamos - de ouvido - com o contemporâneo canto falado de “Ditodos”. Mistura de samba-rap, esta canção resgata a tradição musical brasileira de reler ditos e máximas, pondo na boca do ouvinte a palavra “feito uma moeda condenada”. Assim, “Pé de caixeiro é bola de cristal”; e se quem brinca com água dá luz, “Quem planta fogo/ Colhe pé de queimadura”.

Apesar de apontar para a cartografia do cenário urbano, Na esquina sinaliza o espaço sertanejo em canções como “Cego Julião” e “Flor de Ingazeira”. Nesta última melodia entoam-se espaços e esquinas de cidades nordestinas como Mossoró, Caicó e Juazeiro. Na musical geometria destes lugares, o poeta desenha o “mapa das manhãs paradas do amor”, sem esquecer o “sol que persegue o retirante” na sua ressecada odisséia nordestina. O ritmo da forma é também audível na sutilíssima “Flor de Ingazeira”. Brotada na oralidade do sertão ela floresce, “na esquina”, em meio à sonora paisagem concreta.

No solo interno no qual se desenvolve a sintaxe dos afetos e se constrói a geometria das identidades do novo milênio, o corpo poderá a tudo ler independente do tempo. Se o contemporâneo plugou-se à pele do espaço e às formas do virtual, qualquer coisa pode estar em qualquer lugar: “Tá no celular, tá no jornal, tá no andar”. Pode estar na palma ou na linha das mãos que mapeam o encarte deste belo CD. Pode estar bem ali zanzando sarabandando, como forma de dobrar e inscrever a esquina sonora do milênio.


segunda-feira, 22 de junho de 2009

A poesia move o mundo, os dias










Resenha pubicada nO Jornal de Hoje, Natal, 16/09/1999



A literatura potiguar atende, na última década do milênio, por vários nomes. Um deles é sótão 277 - grupo de artistas surgido no início dos anos 90 e que se reunia para ler, escrever, pintar, tocar, namorar e “biritar” num velho sobrado do bairro de Lagoa Seca. Daquele espaço entre o teto e o telhado saiu uma galera que começa a ocupar as redações de jornal e TV, as agências de publicidade e salas de aula, lançando-se no exercício das letras-palavras-páginas.

Depois de enveredar pelo fanzine (o “Papai estamos vivos” tem assinatura de Ilza Matias), pelos recitais de poesia e pela escritura jornalística, o poeta Pablo Capistrano - ex-integrante do sótão 277 - lança Domingos do Mundo (Fireandice/Boágua Editora), seu 1º livro. Com trânsito por áreas díspares como a psicologia, a comunicação e a filosofia, o autor é um típico leitor cuja oralidade produz uma boa prosa em torno dessas áreas do saber e de várias estéticas. Pablo é bom papo, digo. E bom escritor. Pertence, talvez, à última geração que vê na leitura (do livro) o salutar hábito de “semeio” da escrita. O leitor como produtor.

Diferentemente da geração à qual pertence seu pai - o poeta Franklin Capistrano -, Pablo não possui ideais revolucionários ou vanguardistas, e assume - na orelha de Domingos... - a sua formação via HQs da Marvel e De Comics, música pop e cinema/show de Spielberg. Some-se a isso os seguintes roteiros:
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1- as pegadas da literatura beat e da geração marginal
2- as coloridas lições de Wittgenstein, expressas em textos como “Por amor ou pelo azul de si mesma” e em outros versos que colorem os “Pedaços de Ana” - musa inspiradora da 3ª parte de Domingo...
3- “navegos” pela internet
4- viagens pela América Latina (“Macchupicharam o mundo”), à Europa e em torno do Gudan Garan
5- horas, muitas horas, de estetização pelos shoppings, traileres e bares da cidade; que ninguém é de ferro mas de letra, líquido... e aprendemos no “Barroco moderno” o inteiro metade dos navios negreiros.

Homero cabe no bolso?

Pablo Capistrano pertence a uma geração cuja sensibilidade é produzida num espaço/tempo no qual a virtualidade, a técnica e os processos maquínicos viabilizam mudanças estruturais na percepção de quem lê e de quem escreve. Isso, já dizia Benjamin, afeta a escritura.

No texto do poeta o efêmero tem nome. Daí a consciência de uma letra voltada para o rápido, pequeno e intenso (“praia do poema”), e a suspeita de que Homero não se carrega nos bolsos. Não porque o poeta não os possua, mas porque "não acredito em trens", como diz o texto de “Método” - espaço crítico-poético no qual o autor dá senhas do processo de sua escrita, exercitando uma intuição corpórea: "preciso da mão/ e do delicado artesanato/ dos que intuem com o corpo".

Onde o poema tem corpo e praia, o leitor banha-se em águas advindas de várias nascentes. Da mais tradicional, vem a estetização de que somos cinicamente românticos, e o diálogo com o romantismo contraditório de Rosseau (Algumas vezes é melhor ficar em silêncio). Dos mananciais beats e marginais jorra a dicção por vezes ríspida e certeira, tipo: "Para quem vive uma vida Inteira/ os dias não têm nome". Mas muita onda e muito nome rolam nessa praia: desde um suspenso Jorge Fernandes, embalado/ num jazz chorinho de ford forno microndas, até um Kurt Weill que inscreve num “Lugar Pequeno” as letras de um “Cabaré que salta”.

a língua do seu tempo


Nenhuma tonalidade religiosa, nenhum ritmo metafísico, nada de figurações abissais. O poema de Pablo é curto. Tem eco leminskiano. Às vezes soa brusco, sintaxe incompleta, como se o texto sugerisse demoras. Reflexo da velocidade desse tempo? Como diria Deleuze, o texto do poeta possui a profundidade da pele. Em Domingos do Mundo, o corpo e o olhar dão as senhas para uma escritura que leciona saídas: "Quando um corpo/ abre estrada/ cria música"; ou ainda: "A chave/ está no olho que olha a porta".

Vivenciar uma cultura calcada no elemento visual - em detrimento do lingüístico - possibilita ao poeta elaborar textos como “Enciclopédia do Inferno”. Neste, um catálogo de neuroses e artimanhas que norteiam nosso tempo faz imaginar a diferença de tratamento que daria, por exemplo, um poeta romântico ao mesmo tema. Mais que verbo, há nesse inferno imagem, como se a “enciclopédia” fosse computadorizada, composta de pequenos vídeo-clips. São imagens de um sujeito que se desloca incessantemente construindo esquinas, cujo corpo cava fosso e passa a ser viagem. E nesse viajar imagético, ressalte-se as cores, os tons e as imagens da bela capa deste livro, criada por Waldenor - outro artista remanescente do sótão 277, cujo trabalho gráfico dialoga com várias procedimentos artísticos como a xerox, pintura, fotografia, computação...

Moral da história: Pablo traduz os anos 90. Seu texto inscreve não apenas os Domingos..., mas o tempo que trama a língua do final do milênio. O início de “As anulações do sujeito” anuncia o quanto de mutação temporária e espacial existe nessa língua e ao que ela se propõe: "...encontrar o lugar onde o amor dorme/ e compor o lugar onde o amor altera o/ morador". O sr leitor há de convir que esse "encontro" e essa "composição" constituem numa boa forma para iniciar outro milênio.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Pássaro que devorou o tempo






Impressões sobre o tempo na "letra" de Renato Russo


Revista Folhas de Relva, ano 01 - nº 01, Natal, 1998



O imperfeito não participa do passado
Renato Russo


Esta última década do século XX vem demonstrando que a cultura de massa e a arte moderna produzem cada vez mais mitos com a mesma rapidez com que os devoram; ou matam. O tempo que patrocina essa produção é mediado pelos signos da fragmentação, da simulação, da mercantilização. Nestes "cenários em ruínas", tudo é consumido com a velocidade característica da pós-modernidade e suas conexões com as idéias de superfície e rapidez.

A mídia, em sua ânsia diária à cata da última novidade, tem o poder de descartar hoje à noite o novo matutino lançado como tendência promissora; a academia, balizada pelo rigor e por um saber construído num arquivo de “altas literaturas”, às vezes deixa para amanhã o que poderia muito bem ler hoje. Em meio a esses extremos, situa-se uma produção que, atenta aos termômetros da produtividade e aos procedimentos estéticos contemporâneos, distingue-se pela qualidade (nem sempre original ou experimental) e pela possibilidade de consumo. São procedimentos relativos aos gêneros da cultura pop. Apesar disso, o tempo vem demostrando que alguns produtos dessa cultura perdura.

No caso da banda Legião Urbana - ou Renato Russo, mais especificamente -, ouvimos uma arte sintonizada com os tons característicos da contemporaneidade, e que consegue a proeza de chegar aos ouvidos de segmentos sociais os mais diferenciados e longínquos. Ouve-se Renato cantando “Tempo perdido” e “Faroeste Caboclo” na rádio AM que alcança tímpanos agrários, assim como ouvidos urbanos e letrados - antentos às vozes pasteurizadas da FM e à limpidez do CD - escutam essas mesmas canções populares em sintonia com sofisticados CDs como The Stonewall e Equilíbrio Distante. Renato consegue esse equilíbrio midiático e estético que Caetano Veloso, por exemplo, dificilmente atinge (mesmo tendo composto uma bela “Oração ao tempo” no final da década de 70).

do tempo do planalto ao planalto do tempo

Jornalista e ex-professor de inglês, Renato criou o seu sobrenome artístico para homenagear uma trindade de sua admiração: Jean Jacques Rosseau (pensador), Henri Rousseau (pintor) e Bertrand Russel (filósofo). Leitor de Drummond, Pessoa, W H Auden, Shakespeare, Adélia Prado e admirador de textos como o Tao Te King, Zen e a arte de manutenção de motocicletas e O discurso da servidão voluntária, o autor de “Acrilic on Canvas” escreveu versos como os seguintes que o inscrevem definitivamente na poética de sua geração: "Fiz carvão do batom que roubei de você/ E com ele marquei dois pontos de fuga/ E rabisquei meu horizonte". O horizonte poético de Renato Russo é visivelemente “rabiscado” por uma musicalidade que elege o tempo como elemento determinante de sua criação. "Porque o tempo é mercúrio - cromo/ E tempo é tudo que somos" (“La nuova gioventu”).

Ouvimos os textos do Renato como fragmentos de uma longa sinfonia sobre o tempo; como se ele compusesse para o tempo uma trilha poética e musical. Essa trilha apresenta uma poética cujas estruturas rítmicas são calcadas na sucessão de ciclos, dias, horas, momentos, encontros, datas, estações, números e “palavras repetidas” (basta uma mirada nos títulos e epígrafes de álbuns e canções, e lá está o “mano velho” tempo tecendo a trama). Time como personagem principal... Como forma de conhecimento e de percepção, o “tempo-rei” parece governar uma sucessão de experiências intuitivas e delineiar as ações construtoras desta poética.

Lemos aqui o tempo como um “fenômeno” calcado numa coleção de eventos cíclicos e sucessivos, e que possibilita a leitura do sujeito e do espaço no qual ele atua, sempre em mutação. O tempo caracteriza-se, portanto, por estar contido na noção de diferença. Está também contido numa espécie de diferenciação existencial; na eterna possibilidade de criação e concretude do desejo, cujo fluxo promove a tessitura do texto e dos estágios determinantes de nossas vidas: passado, presente e futuro.

A leitura do tempo tem sido mutante por parte de várias civilizações. De divindade maia a “marco” matemático utilizado pela física para descrever seus fenômenos, o tempo foi também identificado como “rio divino” pelos gregos. Os gregos e romanos atribuíam ao tempo uma pluralidade divina. Para esses povos, havia o Deus de vários momentos, desde o instante de espanto dos cavalos até a divindade representativa do momento de arrancar ervas daninhas. Mas, dentre as divindades do tempo, Cairos tinha destaque especial: “personificava a coincidência feliz das circunstâncias favoráveis para a ação” (Marie-Louise V. Franz). Muito depois, o tempo foi identificado como Crono e Eon - Deuses na antiga civilização grega. Esses deuses eram referências “ao fluido vital dos seres vivos”, segundo esta estudiosa jungiana. Para ela, “a oscilação, a serialidade e a periodicidade tornam mensurável o tempo”, em algumas civilizações; na Índia, por exemplo, predominava uma noção absolutamente cíclica do tempo.

Na linear tradição judaico-cristã, o tempo tem início bem ali no “Gênese”, depois que Deus cria o dia e a noite, o sol e a lua e separa as águas. Na coletânea bíblica, os versos do Eclesiastes expressam a solidão e a dualidade características do humano que vivencia a temporalidade terrena. Sobre isso, diz Qohélet - o que sabe, na “transcriação” poética de Haroldo de Campos: "Para tudo/ seu momento/ E tempo para todo evento/ sob o céu/ Tempo de nascer/ e tempo de morrer/... Tempo de ânsia/ e tempo de dança".

Herdeiro dessa tradição que a tudo separa numa polaridade que possui na dialética o seu roteiro, Renato sonoriza a subjetividade temporal do afeto e o estágio da perda. Sua música tenta dar conta do ritmo da comunhão e do descompasso da solidão; do movimento dos barcos e da mudança dos ventos; do “fluir temporal” da busca e das harmonias do encontro. Uma audição de sua obra sugere que o intérprete de “If tomorrow never comes” sabia que "há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade/... há tempos o encanto está ausente/ e há ferrugem nos sorrisos/ e só o acaso estende os braços/ a quem procura abrigo..."

“Há tempos” é apenas um dentre os muitos textos do Renato que remetem a este “ser” que possui a imprevisibilidade como natureza própria: o tempo. O CD no qual a canção inclui-se tem como título uma forte alusão atinente ao tema: As quatro estações. Nesta obra que exibe a maturidade da banda Legião Urbana, o autor opera com procedimentos como a cópia e a construção de simulacros (Camões, Coríntios, um texto inglês do século XVII...) e tematiza uma “doutrina dos ciclos” que remete a autores como Jorge Luís Borges. Induzido por Sônia Maia (Revista Bizz, Junho de 1989) a falar sobre o título deste álbum, Renato disse:

Gostaria que fosse sobre ciclos, a perda da inocência, você atingir um certo estado em que perdeu alguma coisa e, ou vai para o lado deles, ou retrabalha e reconquista isso. ....Mas seria basicamente isso: primavera, verão, chega o outono e caem todas as folhas. E no inverno fica a árvore toda daquele jeito. É como se a gente estivesse chegando no inverno. Mas aí vem vindo a primavera de novo. Quer dizer, você pode escolher ter uma nova primavera. A maior parte das pessoas que eu conheço fica no inverno, e eu acho ser esse o maior problema delas. ...o mais importante é a gente redescobrir as coisas...

Sonorizando as estações - signo recorrente nesta poética -, quase todos os textos deste álbum caracterizam-se por sugerir um sujeito que estetiza a existência, sintonizado com o tempo no qual se situa. Neste álbum, várias questões urbanas são relidas por um prisma ético/estético, de cunho espiritual/existencial, e não apenas sócio-político, como predominava nos álbuns anteriores - principalmente no 1º e no 3º. Na balada “Pais e Filhos”, Renato canta, de ouvido na fragmentação oral do cotidiano urbano, que "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã". Na canção “Quando o sol bater na janela do teu quarto”, o sujeito que busca saída na atemporal doutrina do Buda informa/indaga: "até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo/ quem roubou nossa coragem?"

Na sequência das letras, o romântico texto a seguir - “Eu era um lobisomem juvenil”- aposta na simultaneidade contemporânea ao anunciar que tudo acontece ao mesmo tempo. Essa aposta lembra o conceito de sincronicidade criado por Jung, utilizado por Marie-Louise em “Ritmo e repouso”. Segundo essa conceituação,

...a coincidência dos acontecimentos no espaço e no tempo significa algo mais que puro acaso, isto é, uma interdependência peculiar dos acontecimentos objetivos entre si, assim como com estados subjetivos (psíquicos) do observador...

A noção de tempo, na obra de Renato Russo, parece remeter às mitologias e seus aspectos cíclicos de temporalidade. Seus textos estão entremeados de referências a um tempo que retorna, apontando perenes acontecimentos sincrônicos - “atos de criação no tempo” (Jung).

"Temos paz, temos tempo" - entoa o eu da próxima canção de As quatro estações, que traz no próprio título a delimitação de um ciclo temporário: “1965 (Duas Tribos)”. Contrário a esse eu datado, o outro que estetiza alguns versos bíblicos pede piedade ao cordeiro de Deus, e leciona uma metodologia afetiva de caráter universal: "Quando se aprende a amar o mundo passa a ser seu /...estava longe de sereno/ e fiquei tanto tempo duvidando de mim (“Se fiquei esperando meu amor passar”).

Questionar, esperar, duvidar de si são procedimentos comuns ao sujeito que vivencia sua subjetividade num espaço cuja imagética é mutante e fragmentada; num tempo cujos fenômenos extremos são mediados pela força da virtualidade, seus ritmos e movimentos - elementos criadores de uma outra concepção temporal.

No 2º disco da Legião Urbana, uma das canções mais elaboradas e entoadas pelo público associa tempo e a religião: "Quem me dera, ao menos uma vez,/ entender como um só Deus/ ao mesmo tempo é três". Nestes versos da pujante letra de “Índios”, a indagação e a dúvida - parceiras de quem cria e investiga - surgem ritmadas pela velocidade lingüística da contemporaneidade. De ouvido atento a essa linguagem, percebemos que Renato fala a língua dos homens do seu tempo, como ensina-me o poeta Pablo Capistrano.

O olhar e o ouvido contemporâneos de Renato Russo possibilitam ouvirmos uma obra cujo "narrador" sugere um detetive que estetiza o tempo (passado); um "narrador" que tenta produzir no presente alguns signos reveladores do futuro ("E o futuro não é mais como era antigamente"). Essa possível produção de signos acontece como se o presente redimisse imperfeições passadas ("Agimos certos sem querer, foi só o tempo que errou") e a memória re-lida se lançasse ao futuro tecendo Uma outra estação (Título que batiza o CD póstumo da Legião).

da arte do encontro aos desencontros do tempo

Em Questões de Literatura e de Estética, M Bakhtin trabalha a noção do cronotopo (a relação espaço-tempo) e cita o “motivo do encontro” como importante elemento constitutivo do romance. Nessa teoria bakhtiniana, a narrativa se desenvolve até que um certo personagem depara (ou não) com um outro e pronto: o tempo muda, alguma coisa divina acontece... Segundo o teórico russo, esse (des)encontro pode influir no clímax da história ou mesmo no desfecho do enredo.

Nos outros gêneros literários percebemos que este “motivo” cronotópico não é menos assíduo: "...esperamos que um dia nossas vidas possam se encontrar", anuncia o aspirante ao encontro de “O teatro dos Vampiros”, buscando reler o tempo passado: "...voltamos a viver como há dez anos atrás". Na produção textual de Renato Russo, o “motivo do encontro” aparece como determinante da construção do sujeito, da leitura do seu espaço e do tempo nos quais ele atua. O ponto de partida para isso é a consciência da alteridade no que esta possui de desafio e desejo. “Riquezas são diferenças”, entoa Arnaldo Antunes - outro exímio poeta da geração de Renato.

Vivenciar o outro como parâmetro para a dimensão de si parece ser um procedimento pertinente da obra russeana. Mesmo quando numa atitude típica dos românticos o autor centra-se em si (como na letra de“Soul Parsifal”), ele evade no tempo e no espaço; mesmo quando "encena" o tipo perdedor que habita o planeta passado, ainda assim presente e futuro intentam uma relação dialógica que não exclui a dimensão do outro. A poética produção de Renato traduz uma contínua simultaneidade atemporal onde o outro, a alteridade tem voz: "a cada ato enceno a diferença" (“Os barcos”); ou como nesta letra certeira de timbre adolescente: "...com você por perto/ eu gostava mais de mim" (“La nuova gioventu”).

Nesta produção musicial, a leitura do presente está diretamente relacionada às experiências e percepções passadas, além de intuir um futuro que às vezes se anuncia pleno. É o que insinua o texto “Perfeição”, de versos diretos e aparentemente referenciais, e cuja mutação harmônica sugere a coexistência de várias canções numa só. Lembremos a seguinte estrofe:

Venha, o amor tem sempre a porta aberta
e vem chegando a primavera
nosso futuro recomeça
venha, que o que vem é perfeição

A “perfeição” aqui entoada pelo sujeito parece apontar não para uma eterna audição harmônica e prazerosa desta última estrofe da canção, mas para o desejante devir proporcionado pelo efeito de fruição que Renato constantemente propõe: bebermos a água podre, comemorarmos os impostos e nosso castelo de cartas marcadas...

Noutros textos de O descobrimento do Brasil (1993) - um álbum no qual a temática das perdas é audível -, a proposta fruitiva aponta para recomeços que se valem do tempo como referencial: "...e aos vinte e nove no retorno de Saturno/ decidi começar a viver..." (“Vinte e Nove”) e "O fim do mundo já passou/ vamos começar de novo" (“Vamos fazer um filme”). Na trilha sonora do “filme” feito pelo “filho da revolução”, é audível o diálogo musical que o compositor mantém com autores e estilos de várias épocas. Nessa trama dialógica, ouvimos trechos de harmonias de Schubert, Verdi, Tom Jobim; conhecemos fragmentos melódicos do tradicional folclore americano (“Come share my life”), cantiga de amor do séc. XIII (“Love song”), instrumentais reciclados a partir de trilhas do cinema (“High Noon”, do filme Matar ou morrer) ...

No filme de Renato é visível a imagem do sujeito que faz da re-leitura do pretérito a elaboração de outro tempo (ou verbo) a ser conjugado no futuro. "Aquele gosto amargo do teu corpo/ ficou na minha boca por mais tempo/ De amargo e então salgado ficou doce", informa a experiência re-lida e estetizada em “Daniel na cova dos leões”. Essa experiência parece advinda de uma memória instalada na mente e no corpo, refletora de mudanças e movimentos sintonizados com a filosofia kanteana que anuncia: “Tempos diferentes são unicamente partes de um mesmo tempo”. Essa sintonia com esse pressuposto filosófico, percebemos que no texto atemporal do polêmico e polifônico Renato, a leitura do passado transcende a uma delimitação temporária do que foi vivenciado, já que o sujeito leitor da experiência tem sempre um outro olhar. Um olhar que é “desejo e palavra”; que vê e se deixa invadir por outros olhos. O olho como instrumento e enunciado poético.

Para a leitura desta poética do tempo, o autor re-lê o passado (a tradição) como texto de possibilidades, de criação. É o que demonstra o eu lírico de “L`avventura”: "Não se pode olhar para trás/ Sem se aprender alguma coisa/ P’ro futuro". Essa lição textual é incorporada ao presente, apontando para o vindouro e demonstrando que o sujeito está atento ao sonho produzido pelo tempo. Nessa temporalidade que inclui a dimensão onírica, as figurações do presente, as imagens do passado e as formas do futuro tornam-se relativas, como anuncia a pujança dos seguintes versos: "O que fazes por sonhar/ é o mundo que virá para ti" (1º de Julho). Vale lembrar aqui a antiga lição do jovem Jung, de que o futuro se prepara muito tempo antes no inconsciente; daí porque é viável sua tradução por parte de sonhadores e videntes.

Quando escutamos esssas canções onde o tempo é personagem e tema, algumas indagações persistem: teria Renato saudades do futuro? Seria o compositor por isso questionado acerca do seu “messianismo” junto ao público jovem que o acompanha, já que uma das características desse comportamento é apontar saídas, prever o futuro, anunciar uma nova ordem? O autor parece ultrapassar o domínio das funções sensoriais e utilizar-se de um raciocínio intuitivo que, elaborado a partir de um ritmo interno, determina um tempo próprio do sujeito. Este raciocínio intuitivo é ilimitado, pois, segundo Kant, diferentemente do pensamento, a intuição não supõe limites. Para o autor da Crítica da Razão Pura, “o tempo é uma representação necessária que constitui o fundamento de todas as intuições”.

Bem vindos ao ano 2O4O

Segundo o próprio Renato, o “V” é uma obra sobre a espera e, portanto, a incerteza, a possibilidade. Apesar disso, harmonias suaves e elementos positivos sobrepõem-se no texto. Tendo o tempo como interlocutor permanente, o álbum exibe na capa uma figura circular portando uma lua e uma estrela (é bom lembrarmos que, freqüentemente, os signos circulares representam o tempo). Este quinto álbum da Legião Urbana traz em seu encarte uma frase intrigante para ouvidos dos anos 9O: "Bem vindos aos anos 7O" - anuncia a obra que caracteriza-se por apresentar harmonias de longa duração temporal, pontuadas por instrumentais pesados que parecem se repetir ad infinitum... Uma canção de 6 minutos, outra de quase 8, uma outra com mais de 11 minutos, ya que el tiempo es acá nuestra musa (é desnecessário aqui ressaltarmos o que representou, no contexto sócio-político e cultural, os anos 7O no Brasil. Representariam aqueles anos a metáfora do “Tempo perdido” já entoada em Dois?).

Nesta obra que tematiza a espera e a possibilidade, baladas belíssimas como “Vento no litoral” e “Longe do meu lado” (esta última do CD A tempestade ou O livro dos dias), canções de tons viscerais são entoadas por um sujeito que estetiza romanticamente o espaço e o tempo com os quais interage. Sujeito que é, como atestam os seguintes versos, orientado sempre para o futuro: "Vê, a linha do horizonte me distrai". Ou ainda: "Podemos ficar juntos e vivermos o futuro, não o passado". Essas letras acenam para sutis diferenças expostas por quem tenta suprir a falta, re-trabalhar a perda, através da re-leitura de signos empoeirados, como ouvimos nestes versos de “O teatro dos vampiros”: "E destes dias tão estranhos/ fica a poeira se escondendo pelos cantos..."

No texto “Metal contra as nuvens” uma polifonia vocal expressa o fragmentado eu que parece encenar vários sujeitos. Nas quatro partes que dividem a canção (na verdade parecem 4 canções numa só), múltiplas vozes anunciam o diálogo mantido entre reinos e planos concretos, simbólicos, imaginários: "Sou metal: me sabe o sopro do dragão". Já na emotiva e delicada letra de “O mundo anda tão complicado”, o afetivo narrador experimenta o tempo juvenil da partilha e, em comunhão com o outro instaurador do espaço, reconhece sua capacidade de fazer mil coisas ao mesmo tempo.

“quanto tempo perso dietro a lui”


Nesta poética finissecular, o texto e a vida são perpassados por um tempo todo linguagem... Numa canção de O descobrimento do Brasil, um sujeito diz ter aprendido a viver um dia de cada vez (“Só por hoje”); noutra canção do álbum Dois, a esperança revolucionária está de volta na voz que proclama: "Nosso dia vai chegar" (“Fábrica”). Durante “A Tempestade” e na presença de seus anjos, o romântico que tudo espera de si sabe ser a solidão o mal do século, e assim conclui a letra de “Esperando por mim”: "Os nossos dias serão para sempre". Já no final dessa trajetória estética, um eu de Uma outra estação segue o calendário maia e, ainda neste CD póstumo, uma outra voz confessa: "queria que o tempo/ pudesse voltar outra vez" (“Comédia romântica”).

Mas, como sabemos, o tempo não volta. Nem pára, como cantava Cazuza, outro compositor da geração do Renato. No tempo circular do eterno retorno, essa expressiva discografia (9 álbuns com a Legião e 3 solos, gravados entre 1984 e 1996) apresenta um elenco de musas e personagens musicais que são entoadas por toda uma geração: Eduardo e Mônica, João Santo Cristo e Maria Lúcia, João Roberto, Andréa Dória, Daniel, Clarissa, Maurício, Mariane, Leila... Muitos são os “meninos e meninas” estetizados na rápida temporada russeana pelo planeta terra. Vários são os personagens vivificados por Renato - poeta contemporâneo dos procedimentos artísticos do seu tempo; sujeito da paixão e romântico rebelde que, dizendo-se seduzido pelo espírito, ´pela bondade e pelo desejo, estetiza na página a matéria poética vivenciada na pele.

A poética de Renato Russo inscreve-se a partir de uma memória que articula vários tempos. Essa poética interfere no con-texto presente a fim de projetar o tempo futuro. Neste sentido, "o espetáculo" da sua própria morte transforma-se em texto: as cinzas do corpo do poeta espalharam-se nos paradisíacos jardins do paisagista Roberto Burle Marx, no Rio de Janeiro, em Outubro de 1996.

Como reza um dos encartes da banda, “existem marés e existe a lua... Existem canções”. Haverá sempre “Uma outra estação”, apesar de “A tempestade” ser o signo que representa a música “ou o livro dos dias”. Como nos ciclos das quatro estações, podemos alcançar, sozinho ou a “Dois”, uma outra primavera, tendo como trilha uma certa “Música para acampamento”; podemos descobrir “Que país é esse”, ao ouvirmos novamente “O descobrimento do Brasil”. Mesmo que essa audição implique um “Equilíbrio distante” (Mencionei aqui todos os títulos dos álbuns, faltando apenas o “V”. Na leitura feita pela numerologia, este número é considerado o centro por estar no meio dos 9 primeiros números. Podemos então intuir uma certa sincronia, ao lembramos que a Legião Urbana gravou 9 álbuns, e que este quinto álbum poderia representar o centro da carreira da banda?).

São muitas as perguntas que o tempo propõe para quem vive, canta, voa. Como num antigo texto chinês, voou o pássaro de fogo que devorou o tempo, ou foi o tempo quem apressou o vôo do pássaro? Se é certo que as mutações espaciais e as transformações das marés determinam mudanças no tempo e no comportamento das pessoas, é possível escutar - em qualquer estação -esse canto que ecoa para sempre. Afinal, como ele intuiu/entoou, "o infinito é realmente um dos Deuses mais lindos".


Bibliografia

01 - Baitello Jr., Norval. O animal que parou os relógios.
1ª ed. São Paulo: Annablume, 1997.

02 - Bakhtin, Mikhail. "Formas de tempo e de Cronotopo no Romance" in
Questões de literatura e de estética. 2ª ed. São Paulo: Hucitec, 1990.

03 - Campos, Haroldo de. Qohélet/O-que-sabe/Eclesiastes (Poema sapiencial). São
Paulo: Perspectiva, 1990.

04 - Franz, Marie-Louise Von. Ritmo e Repouso. Trad.: GVS. Rio de Janeiro,
Edições del Prado, 1997.

05 - Kant, Immanuel. "Do tempo" in Crítica da Razão Pura. Trad. Manuela Pinto
dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. 2ª ed. Lisboa, 1989.

06 - Leshan, Lawrence. "Físicos e místicos: semelhanças na visão do mundo" in
Mística e Ciência. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1991

07 - Russo, Renato. Conversações com Renato Russo.
Campo Grande: Letra Livre, 1996.

08 - Peixoto, Nelson Brissac. "Aquele que vem do passado"
in Cenários em Ruínas. São Paulo: Brasiliense, 1987.

Discografia

a) Legião Urbana

. Dois, 1986
. As quatro estações, 1989
. V, 1991
. O descobrimento do Brasil, 1993
. A tempestade ou O livro dos dias, 1996
. Uma outra estação, 1997

b) Renato Russo

. The Stonewall Celebration Concert, 1993
. Equilíbrio distante, 1995
. O último solo, 1998


Valeu JJ pela interlocução.

Este texto é dedicado para:

Favo de Mel (minha querida aluna), Micheline Santos da Silva, Luciana Pompeu, os concluintes/98 do Colégio Agrícola de Ceará-Mirim, a profª. Maria José e os alunos do 2º ano A (“Renato sem você está russo”) do colégio Berilo Wanderley, Natal-RN.